6.9.04

Anneliese - III e fim

III

Até que um dia tudo desabou : fui corrido do bar onde trabalhava porque até os cafés dos artistas têm limites quanto às bebedeiras no trabalho, fui corrido de casa porque não pagava rendes há meses e a senhoria contratou meia dúzia de selvagens para me bater e pôr no passeio tudo o que tinha. Perdi o emprego, perdi o apartamento e, inevitavelemente, perdi Anneliese.

Fui dormir para casa de amigos. Tinham um quarto na cave, com uma entrada independente, e podia entrar e sair sem os ver. Comia de noite, envergonhado : ia-lhes ao frigorífico, cheio de má-consciência, que afogava em vinho. Eles tinham uma adega daquelas a sério, com contrôle de temperatura e humidade, chão em pedras e poeira nas garrafas, inúmeras e cuidadosamente escolhidas, numeradas e arrumadas por regiões, por anos, por produtores. Por vezes embebedava-me de tal maneira que adormecia no chão, a garrafa meia aberta e entornada, coberto do cheiro a vinho, a vómito, a terra, como numa placenta primordial, a placenta da abjecção. Tornara-me insensível ao frio e à dor, como um esquizofrénico – e sentia-me como um esquizofrénico a quem faltasse o interlocutor imaginário, Os meus amigos eram generosos, deixavam-me comer e beber – mas acima de tudo queriam ajudar-me. Não conseguiam: eu só não me matava porque o meu cérebro era incapaz de produzir qualquer ideia que não fosse directamente relacionada com a comida, a bebida, a micção e a defecação – vomitar era um acto reflexo.

Assim passei muitos meses, não sei quantos. Pouco a pouco fui emergindo do meu calvário. Um velho colega dos tempos do teatro arranjou-me um emprego na bilheteira de um cinema. Ia trabalhar todos os dias, limpo, lavado, vestido com as roupas que recebia de amigos e de uma das organizações de caridade da cidade. Não tinha projectos: pela primeira vez na minha vida, o meu projecto não ia mais longe do que comer à noite e ter trabalho no dia seguinte.

Um dia, Gianni veio ver-me.
- Olá. Vejo que isso começa a ir melhor.
- Sim, vai, obrigado. Como estás?
- Bem, e Anneliese também. Ela manda-te beijos.
- Obrigado.
- ….
- …. – não sabia que dizer-lhe. Anneliese era parte de um período na minha vida da qual não me lembrava sem pânico.
- Venho fazer-te uma proposta – disse-me finalmente.
- Obrigado. Que proposta?
- Um amigo meu tem um teatro em Bâle e está à procura de um director artístico. Quer começar por montar a integral das peças de Beckett. Tu falavas tanto em Beckett que me lembrei de ti. Achas que podes ir vê-lo ?

Fui. Rudolphe queria começar a integral por « Solo ». Falei-lhe dos meus últimos meses e não tive dificuldade em convencê-lo. A peça teve bastante sucesso – como todas as que se seguiram, de resto. Iniciámos uma tournée; finalmente, começava a ser alguém no mundo do teatro. Os anos horríveis, os anos dos projectos, os anos da merda estavam longe. Deixei definitivamente de pensar em Anneliese – aliás, tê-la amado daquela maneira parecia-me, agora, incompreensível. Só podia ser consequência, pensava, do estado de desorientação e desestruturação em que me encontrava naquela altura, ou das suas qualidades na cama. Lembrava-me como era bom o amor com ela - “o amor não, o sexo”, corrijia imediatamente. “Parecia que o Criador se tinha divertido a multiplicar as minhas células nervosas por dois para me fazer descobrir prazeres de que Ele mesmo desconhecia a existência.”

Um dia fui despedir-me de Rudolphe. Tinham-me oferecido a direcção de um teatro em Berlim. Fomos beber um copo e acabámos por beber muitos. A Alemanha levou-nos a falar de Gianni.
– Nunca percebi porque é que ele se propôs financiar as peças, com a condição de eu te contratar. Exigiu que ficasses pelo menos um ano, com todos os custos pagos por ele – ele, não o banco onde trabalha, que não financia projectos destes. E exigiu segredo absoluto, vê lá agora não lhe vás dizer que te contei isto. Disse-me que tinha uma dívida muito grande para contigo, mas não sei que dívida pode ser: não te estou a ver emprestar-lhe dinheiro. Enfim, a mim salvou-me o teatro – foi assim que o conheci, fui ter com o banco dele porque estava com a corda na garganta – e a ti tirou-te do fundo do poço. Saúde, e boa sorte em Berlim.

FIM

Genève, 2001

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