24.9.04

Descoberta

Pouco a pouco ia descobrindo que uma vida sexual activa e satisfatória não o compensava do vazio afectivo no qual, lenta mas inexoravelmente, ele caía. Um aviso atempado de A. veio, felizmente, chamar-lhe a atenção para o falhanço das suas estratégias inconscientes de procura de amor. "Nada como procurá-lo aberta, activa, metodicamente" decidiu naquele dia nefasto. "Afinal as estratégias e os atalhos da sedução não te são estranhos. Basta adaptá-los às necessidades específicas do afecto, a que vulgarmente se chama amor. E a verdade é que estás perto, muito perto. Basta querer."

Mas querer não chega. Melhor que ninguém, ele sabia-o. E a sua vida era de novo um jogo de gato e rato entre o afecto e a distância. O afecto - a que ele, frequente e erradamente chamava amor - era uma vertigem, na qual a distância mergulhava, se afundava, vinha à superfície, ofegava, afogava-se; "sou um pêndulo, e como pêndulo que sou não sei, não posso, resolver num só estes dois pólos da minha vida". O aviso de A. veio-lhe de novo à memória: "Que sorte têm, as pessoas para quem a geografia dos afectos nada tem com os afectos da geografia", pensou.

Nesse dia comprou um bilhete de avião para Toulouse; o abismo refez-se, a vertigem, a vertigem continuou - mas o deserto floriu. O aviso de A. tinha sido uma benção. Descobrira, - redescobrira (mas por quanto tempo?) - que a memória de um olhar vale o olhar da memória, e que o mesmo se pode dizer do afecto, da distância, de uma pele, um ventre, uma carícia, uma voz, uma canção.

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