25.10.06

Culpa II

Não me lembro do teu nome. Desculpa. Hoje, sabes, ainda hoje lamento não te ter amado. Tu merecias: fizeste-me as melhores felações da minha vida, fizeste-me o melhor amor da minha vida, fizeste-me o melhor sorriso da minha vida, e se calhar, não me lembro, o melhor jantar também. Lembro-me, repara, perfeitamente de ti: pequena, negra como um dia sem amanhã, bonita e ágil, inteligente e viva, viva, fresca e ligeira. Lembro-me da culpa que senti quando não te fui buscar a casa como te prometera, e lembro-me de ter sentido que tu interpretarias isso como o que de facto foi. Lembro-me de me ter sentido cobarde, coisa que não sou: sou um urso, sabes?, um grande e desajeitado urso culpado, um urso no verdadeiro sentido do termo. Tu não: eras pequena e ágil e enrolavas-te à minha volta como uma gazela à volta do medo, e eu, urso que era e sou, não me apaixonei por ti perdidamente, não te pedi em casamento, não te ofereci todas as flores do mundo, porque nessa altura eu tinha a mania que era monógamo e que fazer-te amor não era em fazer amor, era outra coisa, cujo objectivo era só fazer de mim culpado e fazer de mim um urso, que era o que sou. Uma vez, lembras-te, levei-te a um restaurante bom, na cidade em guerra. Tinhas lá ido muitas vezes, com o teu antigo namorado, um alemão que fugira - o teu termo é "que se foi embora" - quando a guerra começara. Mas tu estavas alegre e fresca e contente como se fosse a primeira vez que foras àquele restaurante, de onde se via a cidade toda, mas não se via a guerra - se bem que tivéssemos de passar por ela para lá ir, e eu vi que estavas com medo, por causa do teu nariz achatado e dos teus lábios grossos mas depois passámos a área perigosa e tu respiraste outra vez, e riste com o melhor riso da minha vida, e a cidade estava em baixo, com poucas luzes mas cheia de ti. Não me lembro do jantar, mas lembro-me de ti e da culpa que sinto por não me ter apaixonado por ti.

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