Devemos aprender a separar a espuma dos dias.
Fotografia sujeita a copyright.
10.12.08
Fotografia - S. Pedro de Alcântara
Se pensa que já viu milhares de fotografias do Miradouro de S. Pedro de Alcântara, desengane-se. A única que jamais viu (ou vale a pena ver) está aqui.
Primo - Conheço-a pouco, e mal. Mas "básica" não é o primeiro adjectivo que me vem à cabeça, quando penso em si;
Secundo - Sou um péssimo crítico de fotografia, de literatura, de chás ou de vidas; explicar o que me faz gostar e desgostar de uns ou outros não é fácil nem evidente - e muito menos um objectivo que atinja regularmente. Além de que, provavelmente, a autora da fotografia poderia explicar tudo isto muito melhor do que eu; além de que se calhar estou completamente ao lado.
Isto posto:
Tertio - Imagine que não sabe que é o Miradouro de S. Pedro de Alcântara; que não sabe que está em Lisboa, sequer. O que vê? Ao fundo, esbatida, uma paisagem que adivinha ser bonita (se não fosse, porquê um miradouro?); duas pessoas que não olham para ela; bancos de jardim - provavelmente a coisa mais banal do mundo. Ou seja: esta fotografia diz-lhe: "aquilo que está a ver não é o que há para ver aqui. O que há para ver aqui é outra coisa, mas você não a vê - tal como, de resto, as duas personagens que deviam estar a ver, mas não vêem. Não olham, sequer".
Quarto - Numa fotografia - como num quadro, de resto - entra-se seguindo um determinado "caminho" - normalmente, mas não forçosamente, pelo canto inferior direito. Os fotógrafos facilitam sempre esse caminho, criando "linhas" que facilitam a entrada do olhar (é a isso que se chama "composição"). Nesta fotografia, a entrada faz-se não pela presença de uma "linha", mas de uma ausência - entramos nela pelo canto inferior esquerdo, porque o direito nos está "barrado" (ainda por cima, por um objecto "banal"). Ou seja: o que nos faz entrar na fotografia é uma ausência, não uma presença.
Quando fazemos uma fotografia há uma pergunta, e uma só, à qual devemos responder. Essa pergunta não é "qual a abertura / velocidade / filme / profundidade de campo que devo usar (no fundo do fundo, as únicas variáveis da fotografia)?. É: o que é que estou a fotografar?
E esta fotografia responde de um modo sensual, físico, concreto a essa pergunta: estou a fotografar pessoas que não estão a ver; e para o mostrar, não te vou mostrar o que elas não estão a ver.
Quinto - Mais: vou colocar barreiras no teu olhar, para que não vejas facilmente aquilo que não é visto. E essas barreiras são bancos de jardim (dois). O nosso olhar esgueira-se para "dentro" da fotografia porque esta fotografia é sobre pessoas que não estão a ver. Como nós, quando olhamos para ela, para elas.
Espero que a Isabel Zuzarte concorde com este arrazoado. E peço desculpa pela verborreia.
Gosto da fotografia, Luís, muito simplesmente porque tem um primeiro plano (com meia dúzia de pessoas/coisas) nítido e um segundo plano (cheio de coisas) esfumado, que lhe dá um tom irreal. Gosto desse contraste. Mas gosto, sobretudo, da sua explicação, tão sensível nos argumentos, quanto racional na tecedura e no encadeamento deles. E, ousaria acrescentar, mais convincente do que convencida… ;-D
Luísa, antes de mais: obrigado. Durante: a sua explicação é muito boa - há realmente uma tensão quase dramática entre os primeiro e segundo planos da fotografia; depois do mais: não sou um bom crítico, que fazer?
Nem sei o que dizer... Obrigada Luis Serpa. Quando olhamos, quando queremos partilhar uma história, um gesto, uma ausência ou até nossa invisível presença num momento dessa mesma história; precisamos de um conhecimento técnico cada vez maior, para o conseguirmos fazer. Como quem escreve: uma virgula no momento errado, um verbo mal conjugado e já não é o que queríamos contar. Eu não sei se uma imagem pode valer por mil palavras, mas se este meu momento de vida, valeu as palavras do Luis, então valeu a vida que me levou até ele. Não só não sei o que dizer como não sei como lhe agradecer.Isabel
Porque ignora olimpicamente a vista? Percebo a originalidade, mas para mim o melhor dos miradouros é exactamente a vista...
ResponderEliminarSou básica, eu sei. :-)
Ana, vamos por partes, pode ser?
ResponderEliminarPrimo - Conheço-a pouco, e mal. Mas "básica" não é o primeiro adjectivo que me vem à cabeça, quando penso em si;
Secundo - Sou um péssimo crítico de fotografia, de literatura, de chás ou de vidas; explicar o que me faz gostar e desgostar de uns ou outros não é fácil nem evidente - e muito menos um objectivo que atinja regularmente. Além de que, provavelmente, a autora da fotografia poderia explicar tudo isto muito melhor do que eu; além de que se calhar estou completamente ao lado.
Isto posto:
Tertio - Imagine que não sabe que é o Miradouro de S. Pedro de Alcântara; que não sabe que está em Lisboa, sequer. O que vê? Ao fundo, esbatida, uma paisagem que adivinha ser bonita (se não fosse, porquê um miradouro?); duas pessoas que não olham para ela; bancos de jardim - provavelmente a coisa mais banal do mundo. Ou seja: esta fotografia diz-lhe: "aquilo que está a ver não é o que há para ver aqui. O que há para ver aqui é outra coisa, mas você não a vê - tal como, de resto, as duas personagens que deviam estar a ver, mas não vêem. Não olham, sequer".
Quarto - Numa fotografia - como num quadro, de resto - entra-se seguindo um determinado "caminho" - normalmente, mas não forçosamente, pelo canto inferior direito. Os fotógrafos facilitam sempre esse caminho, criando "linhas" que facilitam a entrada do olhar (é a isso que se chama "composição"). Nesta fotografia, a entrada faz-se não pela presença de uma "linha", mas de uma ausência - entramos nela pelo canto inferior esquerdo, porque o direito nos está "barrado" (ainda por cima, por um objecto "banal"). Ou seja: o que nos faz entrar na fotografia é uma ausência, não uma presença.
Quando fazemos uma fotografia há uma pergunta, e uma só, à qual devemos responder. Essa pergunta não é "qual a abertura / velocidade / filme / profundidade de campo que devo usar (no fundo do fundo, as únicas variáveis da fotografia)?. É: o que é que estou a fotografar?
E esta fotografia responde de um modo sensual, físico, concreto a essa pergunta: estou a fotografar pessoas que não estão a ver; e para o mostrar, não te vou mostrar o que elas não estão a ver.
Quinto - Mais: vou colocar barreiras no teu olhar, para que não vejas facilmente aquilo que não é visto. E essas barreiras são bancos de jardim (dois). O nosso olhar esgueira-se para "dentro" da fotografia porque esta fotografia é sobre pessoas que não estão a ver. Como nós, quando olhamos para ela, para elas.
Espero que a Isabel Zuzarte concorde com este arrazoado. E peço desculpa pela verborreia.
Gosto da fotografia, Luís, muito simplesmente porque tem um primeiro plano (com meia dúzia de pessoas/coisas) nítido e um segundo plano (cheio de coisas) esfumado, que lhe dá um tom irreal. Gosto desse contraste. Mas gosto, sobretudo, da sua explicação, tão sensível nos argumentos, quanto racional na tecedura e no encadeamento deles. E, ousaria acrescentar, mais convincente do que convencida… ;-D
ResponderEliminarLuísa, antes de mais: obrigado. Durante: a sua explicação é muito boa - há realmente uma tensão quase dramática entre os primeiro e segundo planos da fotografia; depois do mais: não sou um bom crítico, que fazer?
ResponderEliminarNem sei o que dizer...
ResponderEliminarObrigada Luis Serpa.
Quando olhamos, quando queremos partilhar uma história, um gesto, uma ausência ou até nossa invisível presença num momento dessa mesma história; precisamos de um conhecimento técnico cada vez maior, para o conseguirmos fazer. Como quem escreve: uma virgula no momento errado, um verbo mal conjugado e já não é o que queríamos contar.
Eu não sei se uma imagem pode valer por mil palavras, mas se este meu momento de vida, valeu as palavras do Luis, então valeu a vida que me levou até ele.
Não só não sei o que dizer como não sei como lhe agradecer.Isabel
"Secundo - Sou um péssimo crítico de fotografia" - deixe lá, Luís, a autora também não é lá grande fotógrafa. No harm done.
ResponderEliminarAí está, cara Ana Albuquerque, uma opinião que não partilho de todo.
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