25.12.08

O fim de um dia no Chapitô

O dia desliza, como um barco à vela que se aproxima de uma costa após muitos dias de mar, para a noite. Ao meu lado um casal francês descobre Lisboa: "regarde, on est juste au dessous du chateau", diz ele. Mas ela apenas olha para o rio, em baixo, e para a cidade. Procura identificar os sítios por onde, provavelmente, passaram durante a tarde; eu bebo um sumo de tomate e penso na quantidade de vezes que vim a este restaurante contigo. Também falávamos francês e também te interessavas muito mais pela paisagem do que pelo que eu dizia. Tinhas razão, claro; mas desculpavas-te: "ne t'inquiète pas, ce soir je te prêterai attention", como se estivéssemos a jogar, como se precisasses de uma desculpa para a atenção que à noite me prestavas. Nessa altura eu andava a descobrir Paul Eluard: "La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur, / Un rond de danse et de douceur"; ou "je suis devant ce paysage féminin / comme un enfant devant le feu", mas tu não querias saber de livros, nem de poemas. "Je ne fais plus attention aux livres; je préfère l'odeur des rues, et ton odeur".

Hoje não há cheiros no ar, nem nas ruas. Lembro-me de um verso que durante muito tempo atribuí, erradamente, a Eluard: "un seul être vous manque, et tout est dépeuplé". Creio que foste tu que me corrigiste. E que foi para ti que Lamartine o escreveu.

2 comentários:

  1. Anónimo02:23

    Et pourtant, Lisbonne est bleue comme une orange.

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  2. Lisbonne est de toutes les couleurs, et toutes les couleurs sont Lisbonne. Sauf le blanc: Lisbonne n'est pas blanche. Et le blanc n'appartient pas à Lisbonne.

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.