23.2.10

Voltar atrás

Vamos voltar atrás e recomeçar onde ficámos, queres? Eu chego a casa, ponho o chapéu no sítio do costume, tiro o sobretudo; tiro os sapatos. Vou à cozinha dar-te um beijo; pergunto-te se queres ajuda e tu dizes "não, obrigada, está tudo pronto. É só pôr no forno". Volto para a sala e vou ao bar preparar um whisky. Pouco depois tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. Eu vou-me embora".

Começo por não perceber. "Vais-te embora?" "Vou." "Não percebo. Vais-te embora como, porquê, para onde, como? Quando é que voltas?" "Não volto. Vou-me embora. Vou deixar-te". Como sabes não gosto de lutar contra o que é, quando me parece que é e não pode ser de outra forma. "Está bem. Adeus" e continuei a beber o meu whisky. Tu foste-te embora e nunca mais te vi. É aqui, se não te importas, que gostaria de rebobinar e começar de novo. Assim, por exemplo:

Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. Fazes-me um gin tónico?" Levanto-me e faço-o, como tu gostas (é - ou melhor, era - um ping pong permanente, "como tu gostas"), com bitter Angostura. Tu sentas-te no braço do sofá e dás-me um beijo.

Ou:
Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Vamos para a cama?" E eu respondo "sim" e vamos para a cama.

Tudo, menos "está bem. Adeus".

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.