9.12.10

Caravanserai

Estava deitado de costas na areia escaldante e dizia "sou o deserto" em vez de "estou no deserto"; ou talvez "sou um deserto". "Sou o deserto" e aquele artigo definido enchia-lhe o campo de visão, o sol o céu sem núvens sem cores sem nada. "Sou o deserto". A areia queimava-o cada grão era um "o" de "sou o deserto". Queimado nestes grãos artigos definidos dunas nos raios afiados do sol nas noites gélidas nas ausências, nas ausências.

"Serei o teu caravanserai", respondeu-lhe uma águia ruiva que por ali passava, distraidamente.

O ar do deserto é leve e queima tanto como a areia pesada e quente do deserto e a distância "sou a distância e o que fica entre a distância e a vida" dizia enquanto olhava para cima deitado de costas na areia e não via nada senão distância, não sentia nada senão distância. O deserto é a distância uma ondulação um par de braços abertos infinito como o futuro de um condenado à morte as portas fechadas o deserto e "eu sou o deserto, eu sou o deserto".

Até que finalmente ninguém o ouviu e nesse dia choveu no deserto e as portas do caravanserai abriram-se, elas que tinham estado fechadas para sempre.



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