3.4.11

Amèlie

Para a T., porque mo pediu.
Amélie é uma mestiça alta e magra; consegue ser simultaneamente feia e bonita. Vista de alguns lados o seu rosto magro e ossudo é feio; de outros, aquele conjunto de olhos, cabelos curtíssimos e ângulos duros suaviza-se, arredonda-se, e fica linda. Claro que ao princípio tentava vê-la sempre de um bom ponto de vista; abandonei rapidamente: para além de ser cansativo cheguei à conclusão de que de que uma beleza inesperada é melhor do que uma que se espera, muito melhor.

Amélie vive numa goeleta de 16 metros que está fundeada em Pointe-à-Pitre. Há muito tempo que o ferro não sai do fundo, nem as velas dos sacos. "Agora as minhas viagens são os homens", explica-me. "Estou farta de sal e de mim; prefiro uma boa barba, outros dedos, a mão calejada de um marinheiro. Enfim, várias; quantas mais melhor". A referência à mão calejada é para mim: não uso luvas, e tenho as mãos que parecem pele de tubarão. Falar de outros homens também é para mim: Amélie não acredita que eu não tenho a mais pequena necessidade de exclusividade, "desde", disse-lhe, "que a partilha não seja síncrona".

Amèlie é senhora de um vasto vocabulário; e de um monte-de-vénus completamente rapado, coisa que abomino. Gosto deles amazónicos, como antigamente; parece-me que a modernidade consiste em rapar os pelos a tudo o que os tem. É triste, tão triste como um ventre que desagua naqueles dois lábios fechados, quase sempre feios. Nada como escondê-los atrás de uma floresta dura como arame, uma floresta que dá luta e nos deixa a boca cheia durante dias.

Enfim, outra ideia que abandonei. Amèlie só faz aquilo que quer, quando quer e como quer. "É pegar ou largar". A maioria dos homens pega, e tem imensa dificuldade em largar, de passagem seja dito. Penso que é por isso que Amélie gosta de mim: não só não sou possessivo como não me pego a ela como as nuvens ao Pico. De tal forma que agora é ela que me telefona, quase sempre.

A goeleta chama-se POCAHONTA, "a coisa mais perto de pouca vergonha que encontrei". É mentira, eu sei, mas importo-me pouco. Amèlie teve uma paixão grande por um índio da Costa Rica, ou coisa que o valha, e o nome vem daí. É preciso reconhecer que todas estas informações são dúbias: ela não fala de si própria se não quando está bêbeda, coisa que acontece raramente. Conheço-a e "frequento-a" (não consigo não pôr aspas) há dois anos.

A coisa que mais me seduz numa mulher não são os seios, nem as pernas nem essa balela dos olhos, ou do olhar; é a voz. A voz, aquilo que elas usam para nos dizer que nos amam, ou nos mandar embora. E Amèlie tem a voz mais bonita que jamais ouvi numa mulher: grave e jocosa, como se troçasse de tudo o que diz no preciso instante em que o diz, profunda, bem colocada (a certa altura teve aulas de representação, ou foi actriz. Ficou-lhe a colocação da voz e a forma de se mexer. Desloca-se mas não lhe vemos qualquer movimento nas pernas ou nos braços, como se andasse sobre rodas, ou pelo ar).

É também assim que faz amor: paira na cama, uma espécie de levitação que ainda hoje, dois anos depois, me induz em erro. Parece-me que vou penetrar um bloco de gelo triste, e entro numa siderurgia hiper-activa, uma espécie de hidra invisível, que me acaricia o corpo todo ao mesmo tempo sem se mexer, ou sem qualquer movimento perceptível.

Como ela gosta de rum ensinei-lhe o que é uma "rolhinha". Desenroscar a rolha da garrafa, enchê-la e bebê-la quase no mesmo gesto, sem quebras. É fácil, com um bocadinho de prática: desenroscar, verter, beber, tudo num só movimento.

Amélie apropriou-se da palavra para outros contextos. Quando a penetro diz-me "só a rolhinha". E eu ali fico, com a glande apenas naquelas coisas pendentes durante um tempo que me parece uma eternidade. "Só a rolhinha", diz-me com aquela voz cavernosa, rouca de sensualidade e de rum, "só a rolhinha". E depois, quando estamos os dois já quase a explodir e "conter-se" se transforma num verbo cómico ri-se: "manda a garrafa".

E eu obedeço. Enfio-me por ela toda adentro até aos copos, até me parecer que vou jorrar tripas, até me esquecer das florestas amazónicas ou da modernidade, até o tempo desaparecer e no seu lugar ficar um buraco, um buraco negro, um buraco no qual tudo entra e nada sai.

Amélie faz a mesma coisa nas felações: em vez de tentar, como todas as outras mulheres que conheci, meter a pila toda na boca ela deixa-a de fora, e faz "uma rolhinha". Qualquer homem sabe onde esta técnica leva: a uma erecção tal que fico à espera de ver sangue sair em geiser pela pele do pau, a um nível de prazer que faria medo, se pudesse sentir outra coisa qualquer ao mesmo tempo.

Uma rolhinha.

II

Amélie está diferente. Telefona-me menos frequentemente; a sua voz grave e trocista já não me diz "uma rolhinha", nem "vem jantar a bordo hoje, tenho uma nova para te apresentar". "Uma nova" são as empregadas temporárias que ele coloca nos escritórios da cidade, nas empresas cujos patrões ela conhece por dentro e por fora. Qando vê uma que acha mais bonita ou mais inteligente convida-a para jantar, com dois ou três amigos. "Gosto de combates de galos, nada como ver dois gajos à porfia por uma mulher. Para não dizer que aprendo imenso".

Eu tenho pouca vontade de lhe ligar. Fico com a sensação de que estou a pedir-lhe "uma rolhinha", e não gosto de pedir essas coisas. Acho que devem vir como a chuva, o vento ou um dia de sol.

III

Hoje não resisti. Não a vejo há mais de três semanas, e descobri para grande espanto e aflição que não posso viver sem ela. Quase um mês sem a ver e as mulheres tornaram-se feias, todas sem excepção; os homens ainda mais desinteressantes; e esta cidade, da qual tanto gosto, um horror. A terra sem Amélie é aterradora, e isto é mais do que um jogo de palavras. É uma descoberta medonha.

- Amélie, viva. Jantamo-nos, hoje?
- Não, meu querido. Adeus. Take care.

"Ela nunca disse sequer que me amava", pensei ao desligar o telefone. "E eu tão pouco lho disse".

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