4.3.12

Parnaíba, Piauí, Brasil, 04-03-2012

I
Edgar apareceu às dez da manhã, perdido de bêbedo. Tínhamos combinado às sete e meia, e (implicitamente) sóbrio. Vinha bonito, todo de negro vestido. "Isso não são roupas para trabalhar, Edgar". "Roupas para trabalhar? O que é isso? Eu trabalho com qualquer roupa. Se for preciso, compro nova. Sou filho do Ganha-dinheiro e neto do Paga-já".

O que ia fazer hoje pode ser feito amanhã sem grandes perdas. Mandei toda a gente para casa. Às vezes pergunto-me se não devia apanhar uma bebedeira, eu também, daquelas de caixão à cova e só acordar da ressaca em S. Luís, no estaleiro do Sérgio. A resposta é sim, claro. Mas nem sempre fazemos o que devemos.

A chuva da noite estragou os planos todos. As previsões dizem que vai chover até quarta, intermitentemente. Até agora tenho estado a trabalhar na base "isto talvez chegue"; a partir de agora vai ser "se não for demais não chega". O barato acaba sempre por ficar caro. E se conseguirmos ter os cascos fibrados na quarta não teremos perdido tempo. As boas marés são quinta e sexta. (Depois ficamos sem maré em São Luís, mas para isso não há nem havia remédio. Il faudra faire avec.)

De qualquer forma o nosso tempo é marcado pelo reboque. As marés são uma comodidade.

II
Há pessoas para quem a felicidade está ligada ao amor, ou ao dinheiro, ou à saúde, à família ou a outra coisa qualquer. Para mim a felicidade está no trabalho. É muito redutor, não é?, muito limitado. Um trabalho de que eu goste, correctamente remunerado - o que nunca significa muito remunerado, nesta profissão -, e eu sou feliz. O resto - amor, saúde, bónus milionários (enfim, nunca tive nenhum, talvez seja melhor não os incluir nesta lista) - contribuem para, mas não fazem a felicidade. Não são os seus pilares, quero dizer.

Não sei o que é escravidão; mas sei o que é não ter dinheiro. Deve ser muito semelhante.

III
Na Escola Náutica quando alguém dizia uma coisa que era considerada supérflua, desadequada ou pouco credível, dizíamos-lhe "estás a falar porque queres". Ultimamente esta expressão tem-me vindo tantas vezes à porta da boca (em inglês, claro, que sempre é mais sofisticado).

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