31.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 31-05-2026 (e um pensamento extemporâneo do dia)

A questão pode parecer complexa, interessante, metafísica e tudo o que se quiser. Revelar a nossa fragilidade, pequenez, impotência e sei lá que mais. Não é nada disso. A dor, sobretudo quando é tenaz, insuportável e nos deixa de mãos atadas é simplesmente um horror, uma merda, uma tortura. A miséria não merece discursos grandiloquentes.

Resisto à tentação de pensar que a médica parecida com um tractor russo avariado percebe tanto de receituário como de comunicação - isto é, nada. O corticóide, os analgésicos, o anti-inflamatório, o mio-relaxante que injectaram no centro de saúde e os comprimidos e os emplastros que ela me receitou deixaram-me exactamente como estava antes, se não um bocadinho pior. Agora já nem estando sentado a dor alivia.

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Pensamento extemporánea do dia: reduzir uma transacção comercial ao seu aspecto financeiro - ao preço - é como reduzir uma relação sexual ao sexo. Quem o faz perde mais de metade da coisa. Se calhar, a mais importante. 

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Há uns anos um médico disse-me que eu tinha uma bos resistência à dor. As perguntas que eu me faço são: a) Terei perdido essa resistência ou parte dela? e b) Como farão as pessoas que não resistem tão bem à dor? O meu pensamento e a minha solidariedade estão com elas.


30.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 30-05-202_

A coisa começou anteontem em Cadiz e foi crescendo e saiu à luz do dia ontem em Mazagón e hoje em Vila Real de Santo António está exactamente na mesma com a diferença de ter passado quatro horas no centro de saúde, me terem injectado quatro substâncias diferentes, receitado comprimidos e emplastros que já pus e tomei, rapazinho bem-educado que sou. A coisa sendo uma dor excruciante na anca direita, uma dor lancinante que sim, ao contrário do que dizia em Cádiz o Tarzan que há em mim me impede de andar, de dormir, de pensar e me faz lamentar não ter uma moto-serra à mão que ia já perna e anca e tudo.

Pela primeira vez desde a Covid tive uma experiência pouco agradável com o pessoal do SNS. A médica era uma senhora gorda, feia, hispanófona e antipática como o raio que a parta; os enfermeiros não eram nem gordos nem feios e falavam todos português mas com excepção de uma senhora não eram particularmente simpáticos; as instalações levaram-me aos tempos de África. Cereja em cima do bolo: estou exactamente na mesma. Às voltas na cama sem encontrar uma posição que me permita dormir ao menos cinco minutos.

Escrevo isto para tentar diluir a dor mas não consigo. Ainda por cima a senhora doutora receitou-me uns comprimidos que me impedem de beber álcool. Vinte e cinco dias sem uma cervejita, um copo de vinho ou medronho. 

(Cont.)

28.5.26

Diário de Bordos - Cadiz, Andaluzia, Espanha, 28-05-2026

«Por que palavra começar, por que desordem?» Estas palavras de Eugénio de Andrade perseguir-me-ão até ao fim dos meus dias. Aproveito a dica e a boleia e começo por palavras e desordens: que diferença há entre conversa de chacha e conversa de caca? Assim de repente - que está longe de ser repentinamente - penso que nenhuma de fundo. O h está alí por educação, por gentileza, por aquilo a que os franceses chamam politesse e o DeepL cortesia. Prefiro esta última. Agrada-me a ideia de um h cortês, se bem o que me inspirou esta profunda reflexão não tenha nada de cortês. Estou farto de conversas de chacha - ou de caca - suporto cada vez pior a estupidez, sobretudo quando vem escoltada por uma espécie de amor aos animais que não é amor, não é paixão, não é nada se não uma patologia psiquiátrica. Pergunto-me, obviamente, se uma patologia psiquiátrica inteligente é melhor e vem-me de seguida à mente a M. de St. Martin. Por coincidência, esta também se chama M. e as patologias são completamente diferentes. Apesar de tudo, prefiro a desta. Pelo menos não me agride directamente. Limita-se a expor simultaneamente a sua incapacidade cognitiva e o seu «amor» por animais. 

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Ponhamos um pouco de ordem nisto. Estou em Cadiz e fui almoçar ao Cumbres Mayores. Fui com a M. e o F.. Depois eles «liberaram-me»: isto é, escapei-me. Desenfiei-me e vim vadiar por estas ruas que a cada metro me fazem pensar em Cartagena, mas com mais vida, mais gente na rua, mais classe. Ando à procura da praça que há alguns anos fotografei; não a encontrei. Na troca encontrei outras que não conhecia. Acho que fiquei a ganhar. Cada canto que não conheces vale dois dos outros.

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Um pouco como Barbate: o que eu perdi por só ter ido ontem ao mercado... 

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O embarque na lancha de cinquenta e cinco pés mudou para dia quatro em Sevilha. 

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F. precisou de três tentativas para atracar num sítio aonde havia lugar para o QUEEN ELIZABETH. Tento não me aborrecer (isto é, não me chatear) mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Porra, eu também já falhei manobras. Muitas, mesmo. Mas nunca saí desses falhanços a dizer que a culpa é do vento. A culpa era minha, ponto final. É por isso que agora as falho cada vez menos. (Tal como a culpa, o mérito também é meu, mas isso são contas de outro rosário. Qualquer marinheiro sabe que tudo o que lhe corre bem é resultado da sorte e tudo o que não é consequência da sua nabice.)

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Procuro um sítio para turistar, escrever e passar fotografias para o computador. Tentei alguns e acabo no Mirador Las Cortes, o bar do hotel homónimo. Não é bem o local indicado mas as mesas de mármore e o sorriso do empregado compensam largamente. Cadiz é uma cidade mediterrânica travestida de atlântica, é uma cidade andaluza disfarçada de cidade espanhola (ou internacional, ma non troppo), é uma cidade tranquila e pachorrenta disfarçada de cidade normal. Talvez seja por isso que gosto tanto de aqui vir: desgosto do que se mostra, se dá a ver. Prefiro lugares - e pessoas - que se escondem, que não saltam à vista, como Lisboa ou Palma. Que têm de se descobrir e, simultaneamente, nos fazem descobrir-nos. Não há movimento para o exterior que não seja acompanhado por um outro igual e de sinal contrário, disse o senhor da maçã. E disse bem. 

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Continuo a ser atacado por dores miseráveis, quase não consigo andar. Isto é: não consigo andar depressa ou muito. Ando devagar e pouco. Não vou deixar uma porra de uma dor (ou duas) imobilizar-me. 

E o que não posso, compenso com táxis. Com a massa que neles deixei em Barbate poderia comprar um helicóptero e pagar o respectivo piloto durante um ano. 

Se ganhasse o totómilhões, claro.

27.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 26-05-2026

Venho almoçar à Taberna de Abelardo, que concluiu com êxito e distinção a sua prova de inclusão no meu pódio Barbate. Vim a pé, o que é uma asneira, claro. Tive de parar no El Gordo para meter combustível e confirmar a minha intuição: não vai para o tal pódio, nem perto. Já o Abelardo satisfaz todos os meus diferentes eus: o gastrónomo, o esteta, o vagabundo que gosta de valores locais, o teso que gosta de comer bem, o explorador sedentário (ou vice-versa). Somos muitos e não é fácil chegar a todos ao mesmo tempo. 

A Taberna de Abelardo está dividida em duas salas. Uma é o «restaurante» (aspas para sublinhar as minhas tolerância e generosidade) e outra a taberna propriamente dita, que é a minha favorita. Sou um troglodita que sabe comer de garfo e faca, um taberneiro com boas maneiras e boa educação, um esteta capaz de filtrar e eliminar o feio e só ver o bonito.  

26.5.26

Considerações importantes sobre a conservação da natureza

Esta coisa da conservação da natureza irrita-me ligeiramente. Há muitas razões, todas elas ligeiras, claro. Por um lado, acho muito bem que algumas espécies desapareçam. Não gostaria nada de viver num mundo cheio de dinossauros e apreciaria bastante um sem orcas ibéricas, moscas ou mosquitos. Por outro, sendo ateu - céptico define-me melhor, mas enfim - não gosto de que me impinjam mitos, crendices, fés, superstições ou fetichismos como se fossem dogmas. Finalmente, chateia-me o negócio que está por detrás de tanta beatitude. Nada tenho contra o negócio, note-se. Se há tolos suficientes para o sustentar, ainda bem. Feliz por eles. O que me chateia é o engano, por um lado; e o gasto de dinheros públicos, por outro. 

E estragarem-me as paisagens com eólicas, naturalmente (o jogo de palavras é intencional). Infelizmente, essa natureza não entra nas considerações dos conservadores da outra.

PS - se eu tivesse de escolher entre o fim das moscas, dos mosquitos ou das orcas ibéricas, votaria por estas últimas. Coitadinhos dos atuns que elas comem.

25.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 25-05-2026 / II

Almoço na Casa Oscar, sugestão do taxista que me trouxe. Não fiquei nem muito entusiasmado nem muito desiludido, antes pelo contrário. Tem duas vantagens: as empregadas são giras, sorridentes e eficazes; e vejo o mar, que não se cansa de me repetir «como vês, nem pensar em largar». E uma desvantagem: a comida não é exaltante. É assim-assim, nem bom nem mau. Para desempatar: não é caro.

Jantar

Não vejo a cara da senhora que está sentada na mesa à minha frente. Vejo-lhe metade das costas, esguias, finas; os braços, que parecem postos ali para suportar o conjunto, quando ela se inclina para um lado ou para o outro; o cabelo, amarrado em trança e pendurado para a frente. A camisa é larga ma non troppo e bonita. Deve ter piada, a julgar pelos risos do homem que a acompanha e que só muito ocasionalmente vejo. Faz-me inevitavelmente pensar na S., quando comecei a andar com ela, num concerto do António Variações em Gouveia. Isto não se inventa, anda um gajo a lavar vidros, a trabalhar numa quinta e a limpar telhados no Jura suiço para engatar finalmente a miúda em Gouveia. Ou na outra S., parisiense de Marselha, com quem atravessei o Atlântico em mil novecentos e oitenta e cinco e só engatei em dois mil e cinco, tudo isto a precisar de afinações. Não sei bem se é o corpo dela que me atrai se a atitude, esta mistura de energia que se adivinha e agilidade e humor que se observa. (Há muitos eufemismos para sensualidade, não há?)

Vão-se embora. Não lhe vi a cara. Desculpa, Vinicius, mas a beleza só é fundamental às vezes.

Saio do restaurante - La Peña del Atún, ou coisa que o valha, outra sugestão de um taxista. Melhor que a casa Oscar mas longe do 4 Veinte ou da Tienda - e venho a pé até ao paseo marítimo. O Bar Europa está fechado e sou acolhido com os habituais sorrisos e braços abertos no Jarana. São onze da noite, a cidade está deserta, o restaurante tem uma mesa ou duas além de mim. Não conheço a Andaluzia toda, tant s'en faut, mas aquilo que conheço enche-me o coração de amor, passe a pieguice.

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Com um bocadinho de sorte largamos quarta-feira. O próximo porto será Cádiz ou Rota, se houver lugar. Daí vai ser Algarve, se Deus existir e quiser. Existir não existe, eu sei. Mas pode ser que queira. Os deuses sempre tiveram uma benevolência especial para com os marinheiros, mesmo quando não existem.

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Poderia dizer que já houve uma altura na minha vida em que este vento (agora seis Beaufort) me encheria de alegria, mas estaria a mentir. Já tive uma vida em que este vento, etc. seria a forma correcta de exprimir o que sinto. Foi noutra vida, pá. Como as S. e as costas sensuais de uma senhora a quem nem viste a cara.

Não tenho a certeza

Estes versos de Santa Teresa de Ávila fazem-me perguntar-me se ela os escreveria estando em Barbate à espera do fim do levante. A resposta está no título.

Nada te turbe, 
nada te espante, 
Todo se pasa, 
Dios no se muda.
La paciencia 
Todo lo alcanza.

(...)

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 25-05-2026

Estou farto de vento até à ponta dos cabelos, que estariam esvoaçando se os tivesse, cada vez que saio do salão, seja para ir ao duche seja para ir à «cidade». Como tenho poucos e cortados curtos não esvoaçam, só me dão um referencial para a expressão. Não que fosse preciso: este uivo permanente é cansativo, com cabelos ou sem eles. Acresce que Barbate não é propriamente o meu ideal de porto para passar mais de dois ou três dias e esse limite vai ser alegremente ultrapassado. Alegremente sendo uma maneira de dizer, claro.

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Saio do Oscar, que não me entusiasmou (cf. infra, não tarda) e venho ao Abelardo.  Pouso em Barbate já tenho. Só me falta encontrar uma Heloísa.

Perguntas matinais

1 - Desde quando é que ser-se "jornalista" dispensa conhecer o significado das palavras?

2 - Desde quando é que "jornalismo" começou a ser sinónimo de evangelização?

Respostas:

1 -Desde os anos sessenta;

2 - Mas alguma vez não foi? Alguma vez os jornalistas não foram os "eleitos", imbuídos de deveres (e direitos) transcendentais, que excedem em muito as suas duas funções primordiais: a) informar; b) escrutinar o Poder?

24.5.26

Serviço público - restaurantes em Barbate

Aos já mencionados bar Europa, taberna Abelardo, restaurante La Tienda, há que acrescentar o restaurante 4 Veintes (mesmo ao lado da Tienda e em face do bar Mateo). 

É mau, caro, feio, antipático e não sei bem que mais. Em sima: uma maravilha.

Hesitações semânticas

A modernidade tem tendência a esquecer que "a Vénus de Milo é tão bela como o binómio de Newton" e isso é uma das coisas que a torna tão detestável.

(Ia dizer repelente, nas contive-me.)

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 24-05-2026

Se o ECMWF e o GFS estiverem certos, não saímos daqui antes de quinta-feira. Como estão os dois de acordo - na verdade três, porque fui confirmar com o ICON - é pouco provável que a coisa mude. E sonhava eu fazer a troca com o V. na Corunha. Chegar a Portimão já será uma sorte.

Entretanto o badanal faz das suas: frio e o T. J. que não pára de se queixar e vibra por todos os lados. Passo muito tempo a bordo, por questões ligadas à baixa altura da maré ou à falta de chuva. Mas também porque o casal não é desagradável e Luna, a mini-cadelita não chateia nada. Mal dou por ela. Não gosto de navegar com cães - se não é a primeira vez anda lá perto - mas enfim, desta não me queixo. Acho doentia a relação da M. com os animais - agora deu em dar de comida a uma colónia de gatos vadios que vive na marina, apesar dos avisos em contrário; falar em dar um tiro a uma orca à frente dela é como sugerir a um crente que talvez se devesse enviar a Virgem Maria para um prostíbulo. Enfim, é uma boa pessoa, O F. adora-a com razão e a vida a bordo é agradável. 

Melhor seria se estivéssemos a navegar mas enfim, não se pode ter tudo.

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Passei uma hora e meia a calcorrear Barbate à procura de um sítio para beber uma cerveja que não fosse no paseo marítimo porque a ver o mar passo eu os dias e não preciso de o ver mais. Acresce que que olhar para ele é perceber porque não podemos sair daqui. Acabo no Europa, o meu bar favorito do supra-mencionado paseo. Favorito é um exagero: não conheço mais nenhum. Venho aqui por causa do episódio do rum Cacique que achei demasiado barato e porque é o menos armado ao pingarelho. A minha busca por uma cerveja produziu um resultado pouco habitual, numa espécie de roulotte  de churros e bolerías aonde um grupo de senhores locais conversava animadamente e abriu um lugar para mim, na extremidade do grupo que estava ao sol mas a verdade é que apreciei bastante o gesto e a cerveja. Antes dessa tinha bebido uma no bar Matteo mas não aceitam cartões e lá tive de calcorrear a rua à procura de uma «máquina de spaghetti», agora rebatizada «máquina de imperiais». Depois caí na asneira de ir comer um gelado - deitei metade fora, os gelados do Claudio são horríveis, têm o monopólio dos gelados - e pronto, ecco, signori, bar Europa depois de umas ovas de atum, de uma mojama, de quase meio litro de mazagran e outro tanto de vinho branco, métodos infalíveis de acelerar o relógio. Ou pelo menos de o enganar. Verdade seja dita: o rapaz é crédulo, deixa-se influenciar por tudo e por nada. Umas vezes parece que anda às arrecuas, outras dispara como o cavalo louco do outro, Desta vez bastou dar-lhe uns copitos de vinho branco e umas tapas e lá foi ele, desarvorado e feliz, porque o tempo gosta de galopar.

O bar Europa esvaziou-se, o sol cai devagarinho, a luz alaranja-se, perde este branco irritante, ofuscante, abafador como nos jogos de berlinde do antigamente. Agora o que nos leva é energia e não bilas. Daqui a pouco terei frio, aposto.

(Cont.)

23.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 23-05-2026 / II

Os cafés de cápsulas estão para o verdadeiro café como um rapaz que decidiu que é mulher para uma mulher de nascença. Tem parecenças, nada mais. Bebo um desses trans-cafés acompanhado por um pseudo-rum e vou deitar-me. F. vê uma série na televisão - nunca hei-de perceber um aparelho desses numa embarcação - M. uma série no telefone e eu digo boa noite, agradeço-lhes a simpatia - real, enorme - e venho deitar-me. O T. J. fala pelos cotovelos,  consequência da ventosga que lhe chega apesar da protecção da marina. Aqui a terra chegam-nos cinco ou seis Beaufort. Esta noite foi mais. M. dizia-me "Parecia que estávamos fundeados". Não iria tão longe mas na verdade ficaria perto. Só faltavam as vagas.

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Queria sair e deixei de querer. Fico a bordo a ouvir as queixas do T. J. e a pensar em tudo o que ainda tenho para fazer: organizar o passado e planear o futuro. Este é curto e aquele interminável. Entre os dois, o meu coração hesita e opta por viver o presente, em toda a sua simplicidade.  Versão pessoal do chutar para canto, suponho. Os cantos estão cheios de bom-senso.

Mix, modernidade

No mix que a opinião publicada (que é cada vez maior, forçosa e infelizmente é reconhecê-lo) usa para analisar a modernidade há cada vez mais moralidade e menos racionalidade.

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 23-05-2026

Se não fosse esta porra deste Levante que nos impede de sair a praça Francisco Tato Anglada estaria um forno. Acho que nunca ninguém encontrou uma moeda só com uma face. É meio-dia, os cafés e restaurantes da praça começam a abrir (mas a Tienda já está aberta, graças a Deus) e o barulho vai aumentando em crescendo rápido. A luz é branca, cega-me, obriga-me a pôr os óculos escuros com os quais me é difícil escrever. Como sem eles é pior, vou alternando. Umas linhas com, outras sem. Estou a preparar-me para comer umas croquetas e para me habituar à ideia de que vamos ficar aqui mais dois ou três dias. A cozinha para o almoço só abre à uma e meia da tarde: há tempo para as croquetas e para a resignação ao inevitável. Não sei se resignação é o termo certo e se resignar-se ao inevitável não será um pleonasmo. Provavelmente sê-lo-á, mas estou-me nas tintas. Qual a parte da minha vida que não é um pleonasmo? Ou melhor, quantos pleonasmos já vivi? Quantas vezes já esperei que o vento mude, que uma cozinha abra, que a luz deixe de me cegar, mesmo a periférica, que entra pelas margens dos olhos? Andalucía, me ciegas de amor y de luz y de ruído y de paz y de pasados, esses pleonasmos teimosos como caracóis, levam anos a sair-nos da vista, mesmo cega pela luz.

Barbate já tem alguns turistas mas por enquanto são poucos e visivelmente espanhóis. Quando olho para os prédios da cidade nova imagino isto em Julho e duvido muito que teceria grandes cânticos de amor, se por cá andasse. Não andarei. Estarei em Palma. Não há moedas só com uma face e há-as com duas brilhantes.

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Para informação: comi croquetas de atún encebollado, provavelmente o prato que Eva cozinhou para o Adão quando aqui chegaram (nessa altura os homens não entravam na cozinha). E o convenceu a ficar.


(Cont.?)

22.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 22-05-2026

Largámos de La Linea às oito da manhã  e até metade do Estreito houve pouco vento, completamente de popa. Mais de popa seria impossível. Tivéssemos panos e diria que estávamos numa popa arrasada. Mas o vento era de combustão interna e assim foi até chegarmos a Barbate, apesar de o vento exterior ter subido até aos oito Beaufort, depois do cabo Camariñal. Isto sempre à popa arrasada e a fazer gincana: a estibordo almadrabas e a bombordo orcas, que andam por estas bandas. Nem encalhámos numas nem nos bateram as outras. 

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Barbate revelou-se a habitual mistura de cidade nova horrível, ventresca de atum sublime no Barbatun (restaurante que aconselho a quem tem sangue de orca ibérica e gosta de atum), simpatia generalizada, casco antiguo belíssimo, tapas no La Tienda mais do que aceitáveis e o inevitável episódio andaluz: vou ao bar Europa, na marginal, para um café e um rum, vem o preço e faço uma cara de surpresa. O jovem empregado começa na defensiva e tenho de lhe explicar que a minha surpresa era por ter achado aquilo demasiado barato. Três euros e cinquenta cêntimos por um café duplo e um rum Cacique bem servido não é todos os dias. Já tenho pena de ter sugerido so F. que partíssemos amanhã. 

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A Andaluzia é o paraíso aonde Adão e Eva se refugiaram depois da história da maçã. Não deve ser diferente do original, com a possível excepção de as pessoas não andarem nuas na rua.

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Jantar no La Tienda: mojama, ensaladilla de la casa, cerveja, vinho branco, hierbas: vinte e cinco paus. Não discuti o preço, apesar de o ter achado barato, dadas a qualidade e a quantidade de cada uma destas coisas. Sobretudo o vinho, Entrechuelos, um vinho da região que é de beber e chorar por mais.

Felizmente não é preciso chorar. Basta levantar o copo.

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Conto isto tudo e penso na diferença entre o que eu vou dizer desta escala e o que a M. e o F. dirão. "Não vemos as coisas como elas são nas sim como nôs somos."

Vida, opções

É muito tarde, fui jantar à La Bodeguiya, vim para bordo, passei um bom momento a falar com os armadores - um casal encantador - , estou no camarote a pensar que isto é a minha vida e pergunto-me se é uma sorte ou uma maldição  e juro que não sei a resposta. 

Inclino-me mais para a hipótese da sorte. Amanhã largamos para Barbate e se tudo correr bem tudo correrá bem. O único problema são as orcas e lá teremos de ir juntinhos a terra, coisa que me chateia sobremaneira.

He's a walking contradiction, diz a canção. Não passo de uma contradição flutuante e continuo sem saber se se isto é uma vida ou se é a Vida, caixa alta, alegria, harmonia, felicidade. 

Opto pela Vida. Teria demasiados anos a resgatar, se não. 

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Quem me tirasse esta necessidade de pensar e duvidar, passe o pleonasmo, iria para o céu. 

Qual deles?

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Fui lá fora beber um último rum e perguntar-me por que raio de carga de água não nasci cheio de certezas, como toda a gente. Regressei ao camarote de copo vazio e mãos a abanar. Ele há efeitos que se repetem.

21.5.26

Manifesto contra as ditaduras

A que horas é o jantar?
A que horas é o avião?
A que horas é... o quê?

Abaixo a ditadura das horas. O jantar é quando eu quiser jantar e tu chegares, o avião é quando eu chegar ao aeroporto, o quê é quando o quê estiver pronto. Estou farto de horas, farto de correr, farto de objectivos. Quero um tempo sem solavancos, sem obstáculos,  um tempo que escorra como xarope de ácer de um frasco que se entornou (não gosto de mel). Não quero obrigações, com a natural excepção das que eu quero. Não quero portões no meu caminho. Quero olhar para a frente sem ter nada para que olhar. Abaixo as ditaduras. Todas! Não quero ser bem comportado, abomino a educação, quero esquecer tudo o que sei sobre a pontualidade ou sobre a necessidade de fingir que o outro existe. Outro não passa de uma metáfora de opressão. Outro, tempo, boa educação e tudo isso, tudo, sem limites não passam de grades na janela de uma prisão.  Abaixo as ditaduras todas - menos a da liberdade, claro. 

E a da memória, aliada e inimiga do tempo.


19.5.26

As lágrimas e o caril

Quando preciso de chorar e não tenho lágrimas vou a um restaurante indiano (ou chinês de Sichuan. Mas o picante chinês é diferente do indiano, menos imediato e por isso prefiro os caris e afins). Também poderia, claro,  ir a casa de uma ou duas ou mais senhoras, tantas, mas isso não resolveria o assunto porque provavelmente foram elas que me esgotaram as lágrimas.

Científico?

Que o socialismo nunca foi científico e Marx pouco mais era do que um aldrabão «toda a gente» sabe. Uso aspas porque é uma perífrase. Em vez de «toda  a gente» sabe deve ler-se «Toda a gente devia saber». Paciência. A verdadeira questão não é essa. É: quando é que a esquerda deixou de pretender sequer ser científica? Quando é que assumiu que não passa de um sistema de crenças mais ou menos equivalente ao voodoo ou às diferentes mitologias (e religiões, esse «ópio do povo») da história? 

A resposta correcta é: «Nunca, infelizmente». A malta de esquerda continua a acreditar na «ciência» como os católicos acreditam que é possível transformar água em vinho - seria muito bom, não seria? Seria. 

18.5.26

Olissipo in perpetuum / II

Depois da bicicleta, o melhor meio de transporte em Lisboa é o aparelho locomotor com que nascemos, as pernas e os pés, aos quais se deve juntar, naturalmente, os olhos e o conjunto de sinapses envolvido no fabrico e na recuperação de memórias. A bem da verdade, deve dizer-se que olhos e memórias estão sempre lá, em todo o lado, até no metro. A fábrica das memórias não pára. Mas quando se anda a pé ela tem mais vagar e aprecia melhor o que vê.

E o que viu, ao longo das camadas cronológicas de que o tempo é feito.

........

Por exemplo: pequeno-almoço na Versailles. Em Palma não há uma Versailles, há uma quase. Em Genebra tâo pouco. Em Londres e Paris há muitas, claro. São cidades grandes, cheias de beleza e de história. Ontem andei muito a pé, atravessei Lisboa do Marquês até aos Anjos, duas áreas da cidade que conheço bem, ligadas por um trajecto que passa por lugares que também conheço bem. Em Palma e em Genebra também tenho sítios e trajectos que conheço bem. Andar a pé dá-nos mais oportunidades para comparar os passados, não é?

........

Uma parte de mim vive em Genebra. Chama-se netos, filha, ex-mulher e presente amiga; outra em Palma. Chama-se P., é uma embarcação de vela que me ocupou - e eu ocupei - mais de dez por cento da minha vida activa. Ou o Mercat de l'Olivar, meu refúgio durante o primeiro mês do confinamento.

Se eu empilhasse estes bocadinhos de vida activa e desse a cada um uma cor diferente - haveria cores suficientes? No arco-íris não. 

Fragmento

«New York is cold», canta o Cohen e Lisboa também está fria respondo e daí penso que se o amor fosse um jogo haveria amores que ganhámos, outros que perdemos e uns terceiros que empatámos. Está um bocadinho de vento, pouco mais ou pouco menos dez nós, vou a pé para casa da J., tenho frio e penso que o amor não é de certeza um jogo. Se fosse, eu saberia quais os que perdi e quais os que ganhei. Não sei. Sei que tenho frio e que quero andar, apesar disso e da renitência da carcaça. E assim acabei por vir a pé, estou quase a chegar, isto é mesmo ao lado, as cidades têm surpresas destas, umas vezes estamos longe, outras perto.

(...)

Penso pouco nos amores. Acho que os perdi se não todos pelo menos quase todos, apesar de não serem um jogo. Se fossem, perderíamos os dois, elas e eu, não haveria um vencedor. No amor ou ganham os dois ou perdem os dois e eu sinto que perdi tantos... Talvez não seja um jogo, talvez seja mais sério, uma questão de vida ou de vida.

(...)

Como teria sido a minha vida, se te tivesse ganho ao amor?

(...)

Às vezes lembro-me de quando fizemos amor e depois - logo a seguir - ocorre-me que nunca o fizemos. Fomos muitas vezes para uma cama juntos. Às vezes a tua outras a minha, é certo. Mas alguma dessas vezes fizemos amor? 

Sâo tâo escorregadias, estas metáforas, não são? Perífrases que estão para a realidade como o açúcar para o café ou o leite para o chá.

E se não: o que foi que fizemos, então? Que fazemos hoje, tu em tua casa e eu na minha? Que nome dar a isto?

15.5.26

Olissipo in perpetuum

Fui deixar os chapéus de Inverno (e um de Verão, mas isso é outra história) à chapelaria, a roupa à lavandaria, fui à apresentação do último livro do António Cabrita na Linha de Sombra, a livraria com o melhor nome da história da literatura e agora bebo um café na Confeitaria Nacional. Daqui vou à Ler Devagar fazer horas para o almoço com o A. G. Penso na Alejandra Pizarnik e na sua Extracción de la piedra de locura e transcrevo para Extracção da Pedra de Lisboa. Pesquiso o título e vejo que o primeiro livro dela se chama La tierra más ajena e parafraseio de novo: A terra mais perto. Perto? Não. Dentro. Não há maneira de me extrair esta pedra, por muito bem que me sinta em Caminha, em Palma, em Genebra ou no mar, que não é bem uma cidade nem uma terra mas é um lugar, com muitos bairros e às vezes becos escuros e ruas luminosas e tudo o que uma cidade tem, sobretudo se for uma das cidades do nosso coração.

Ontem entrei um táxi, não muito longe da lavandaria mas tão pouco muito perto e comecei:
- Bom dia (sou um rapazinho educado, é desnecessário frisá-lo. Digo isto por uma questão de fidelidade ao original). Primeiro vamos ali à Morais Soares... - Aqui o senhor interrompe-me. 
- Vai ser uma volta muito grande?
- Sim, vai.
- Então eu deixo-o ali e o senhor não paga nada. Tenho um serviço a seguir e não posso afastar-me muito.

Insisti um pouco mas o homem manteve-se firme. 
- Não fiz o serviço portanto não tem nada a pagar.

(Cont.)

13.5.26

Prazeres da lusitanidade II

- Cada vez que venho a Cascais, pensar quanto detestava isto quando cá vivia e quanto gosto agora. Ou seja: as maravilhas da metamorfose.
- Vir comer ao Clube que generosamente acolheu em setenta e quatro e parecia "un pissoir publique", aspas porque cito. Agora já não parece. Parece um clube náutico.

Sem graça nenhuma

Acreditar que trocar os automóveis de combustão por veículos eléctricos, cobrir os cumes dos montes com eólicas e os campos com painéis solares vai fazer o clima parar de mudar é uma tonteria equivalente a pensar que um dia um senhora deu à luz sendo virgem e depois andou a alpendurar-se em árvores para ser vista por pastorinhos (em Portugal. Em França foi pela filha de um moleiro numa gruta). Ou que um senhor crucificado e enterrado ressuscitou ao fim de três dias, depois de ter transformado água em vinho, andado num lago pela superfície da água ou multiplicado pães num casamento. Pode acreditar-se nessas coisas todas. Não deve é pensar-se que são reais. Que são factos. 

Não discuto a fé religiosa. Desde que não voltem a obrigar-me a ir à missa e a lá comer rodelas de trigo ou beber "vinho" (entre aspas porque era pouco e mau), a Igreja católica traz-me mais benefícios do que chatices. Refiro-me à arte sacra, seja ela música, pintura, escultura, arquitectura e por aí fora. Até as belíssimas procissões de Maiorca me encantam e me fascinam. E a igreja não fez só mal, ao longo dos seus dois mil anos. Fez muito bem, igualmente. 

Os automóveis eléctricos tão pouco me aborrecem. Poder acreditar em disparates e exibir essa crença pelas ruas faz parte dos direitos de cada um. Os padres e respectiva hierarquia também andam vestidos bizarramente à vista de toda a gente. E têm práticas anti-naturais, como o celibato, jejuns ou ouvir as asneiras dos outros. (Já o incenso acho bem. Tem um cheiro agradável.)

Porém, eólicas nos sítios mais bonitos, painéis solares nos campos em vez de plantas, litanias sobre os puns das vacas e o constante recurso às "alterações climáticas" como causa de tudo e mais alguma coisa - desde, naturalmente, que esse tudo seja mau. Para os crentes dessa fé, nada de bom pode provir das "alterações" - já isso, dizia, me põe cada vez mais fora de mim.

A Igreja Católica acabou por proibir a venda de indulgências. Será que a igreja das alterações climáticas do terceiro dia terá a mesma sabedoria e acabará com as tolices que a sua fé impõe mesmo aos não-crentes, também conhecidos por negacionistas ou climato-cépticos? Pejorativamente, claro, como se a verdade não fosse filha do cepticismo e da negação. 

Atribuir as aparições de Fátima ãs sopas de cavalo cansado que se dava aos miúdos antes de irem para a escola talvez as explique e tem graça. Não sei. Mas dilapidar o erário público em ventoinhas fechando os olhos à Razão, ao bom senso, à estética e à História - isso sim, não tem graça nenhuma.

Prazeres da lusitanidade

- No trajecto de Caminha para Lisboa fazer uma paragem na Mealhada para comer leitão. Um ponto para os defensores do automóvel face ao comboio.

- Ir jantar a casa do amigo mais antigo, que se conhece desde os catorze anos e não precisar de acrescentar mais nada. 


10.5.26

Automaticamente

Sou contra a ditadura do prático. Prefiro-lhe de longe a do belo, a do humano, a do tempo. "Isto é muito prático. Muito barato. Muito rápido. Muito qualquer coisa", dizem-me. Que me interessa? Que farei eu com a meia dúzia de euros ou de minutos ou de qualquer coisa que poupei com isso, "tão prático"? "É belo?", pergunto. "É humano? Precisa da minha atenção?" Abaixo os automatismos. Abaixo tudo o que é "prático". Os piscas-piscas voltam automaticamente ao lugar, depois da curva; os limpa pára-brisas pôem-se automaticamente em marcha; as luzes apagam-se automaticamente; a embarcação vai automaticamente para o novo rumo, chegada ao waypont. O frigorífico apita, se a porta fica aberta.  O fogão desliga-se se retiro a panela. E eu que faço, no meio de tanto automatismo? 

Ralho, automaticamente. 

8.5.26

The Mandé Variations, larga de mão, vasta mescla de temas e desordens

É assim que por vezes me deixo ir, ouvindo as Mandé Variations do Toumani Diabaté, Também me deixo ir na beleza dos rios por que passo todos os dias, o Coura e o Minho, que me arrastam com eles para onde quer que vão. Deixo-me ir nas «vagas da minha memória», aspas porque cito o título de um disco de rock soviético que me foi oferecido em mil novecentos e setenta e sete pela mulher mais bonita da minha vida numa das cidades mais feias da minha vida. Deixo-me ir nesta mistura de vida que eu faço e me faz, espécie de crochet cujas agulhas ignoro quem maneja. Maneja bem, forçoso é reconhecer.

«I never felt at home - Below -
And in handsome skies
I shall not feel at home - I know -
I don't like Paradise -

...»

Emily Dickinson, in Duzentos Poemas, ed. Relógio d'Água, trad. de Ana Luísa Amaral (à medida que vou lendo vou gostando menos da tradução, mas isso é devido a uma divergência conceptual sobre o que uma tradução deve ser). E não me impede de me deixar ir, com alegria e leveza por estar a infringir uma das minhas regras: «Nunca te deixes ir!» Vou guiado pelo Toumani Diabaté, pela memória, pelos dias que me esperam, memórias ab ante, memórias antes de o serem. Que nome terão?

The Mandé Variations? Be thyself!? Larga de mão? Daqui a pouco mais de uma semana embarco. Não me mexo em terra como no mar. «you know Orion always comes up sideways...» diz o Roberto Frost. Sim, sei. Só não sei se o verei desta vez. Vou navegar para norte e já estamos em Maio. 

O Eugénio de Andrade que comprei tem aquele verso fundamental: «Por que palavra começar, por que desordem?» Tem-me acompanhado desde que o li pela primeira vez, há trezentos anos. Ou será tremendos? Não sei. Hoje percebo melhor o poema (em prosa) de onde vem. Naquele dia só entendi a desordem de onde nasce a palavra. Acompanha-me desde esse dia, desde essa noite. É uma fonte, a desordem. Como a noite e as memórias prematuras.

7.5.26

Fragmento

Trabalho para comer, beber e comprar livros. Esta é a versão curta, dir-me-ás e eu concordo. A essa trilogia haveria que acrescentar a fotografia e a compra de objectos bonitos. Mas estas são secundárias, se não em valor pelo menos em frequência. A renda da casa é paga pelo que já trabalhei. O resto? Não sei. Talvez pelas gotas de chuva, ou pela ocasional generosidade ou tolerância ou paciência ou amizade ou amizade, repito-me porque de qualquer forma tudo isto se repete, sempre, inlassablement e aqui só me repito uma vez.

Resumindo: comprei as obras completas do Eugénio de Andrade numa edição da Assírio, uma recolha de poemas do Robert Frost, poeta que conheço insuficientemente e outra ("Duzentos poemas") de Emily Dickinson, idem. A tradução é boa e é de Ana Luísa Amaral, já to posso afiançar, sentado à mesa do Pipa Velha a beber vinho do Porto e a lamentar-me em silêncio sobre a falta de qualidade dos cafés portuenses, pelo menos no que respeita ao vinho do Porto.

A jovem que serve ao balcão não sabe o que é um LBV, tem uma argola no nariz, tatuagens no braço e anéis nos dedos à la Harry Potter. A música não é má, o local é óptimo porque é escuro e está vazio. Ao contrário de mim, que estou cheio de claridade.

Escrever-te tem algumas vantagens: pelo menos posso dizer o que quero dizer-te sem ter como resposta o teu sorriso céptico nem o teu olhar crítico.

...

6.5.26

In

Não sei quem é esta Sónia em quem estou tantas noites mas aprecio-lhe a cultura. Fala tão bem inglês como latim.

5.5.26

Vastidões

Normalmente associa-se o termo vastidão a deserto, mar, estepe. A algo plano, em que nada interrompe o olhar. Não concordo. Falo, por exemplo, na vastidão da amizade; falei muitas vezes, a seu tempo, na vastidão do amor que sentia por esta ou por aquela senhoras. Continuo a sentir o sentido de vastidão quando leio estes versos (não o são, nas pouco importa):

"La vida es una mala noche en una mala posada."
"Vivir la vida de tal suerte que viva quede en la muerte."
"No son buenos los extremos aunque sea en la virtud."
"It is foolish to think that we will enter heaven without entering into ourselves." 

Não sei quem quem traduziu a última frase. A vastidão da minha ignorância. A propósito: a autora é Santa Teresa d'Ávila. 

A vastidão da beleza: ouvia há pouco Leonard Cohen e Julie Felix cantar em dueto e dali parti para aqui, diria se não soasse tão mal. Foi a primeira vez que ouvi aquele dueto. Depois da milésima, quero dizer. É sempre a primeira vez que se ouve Leonard Cohen. 

Diria tantas coisas, se não estivesse perdido na vastidão do silêncio. 

Na vastidão do deserto vêem-se torres dispersas nas quais o olhar esbarra. Estão ligadas por uma linha quase invisível chamada vida. Ou memória.  É a mesma coisa, a mesma vastidão.

3.5.26

Em defesa da epistemologia intuitiva

Imagine-se uma pessoa que nunca sequer viu uma embarcação de vela. Imagine-se que essa pessoa assiste a uma conversa entre o Loïc Peyron ou a Ellen MacArthur e eu. 

Quanto tempo levaria essa pessoa a perceber que tanto a Ellen como o Loïc sabem infinitamente mais de vela do que eu?

(Antes de continuar, isto precisa de um pouco de contextualização. Não sei como é nas outras áreas do saber, mas os grandes marinheiros são pessoas extremamente humildes. Dou um exemplo, tentando ser breve: Ellen MacArthur ganhava as regatas devido à sua sobrenatural capacidade de interpretar as previsões meteorológicas. Aquela mulher fazia opções de rotas que um dia levaram um do seus competidores directos a dizer-me "A Ellen vem de outro planeta".

Um dia veio jantar a minha casa, em Cascais. Entrou, trocámos as formalidades usuais e cinco minutos depois estava a fazer-me uma pergunta sobre um fenómeno meteorológico frequente em Portugal para o qual não encontrava explicação. 

- Não sei, Ellen. Ando há meses a procurar, já perguntei em todo o lado, serviços meteorológicos, universidades, tudo. Ninguém soube responder-me... [Pausa. Um tempo.] Mas espera,  quem tem de fazer essa pergunta sou eu a ti e não tu a mim.

Ellen encolhe os ombros e diz-me: "Há que perguntar tudo a todos. Não consigo perceber por que raio de carga de água aquilo acontece e alguém há-de saber [a tradução é minha e não é literal]". 

Uma cena semelhante passou-se com o Loïc em Salvador da Bahia, mas poupo os pormenores aos leitores.)

Ou seja: não é preciso ser especialista numa área qualquer para se ser capaz de perceber de que lado a razão tem mais probabilidades de estar. A minha opinião sobre a Covid comecou a formar-se a partir das discussões (essas, sim, violentas, contrariamente às minhas supra-citadas) entre o André Dias e um aldrabãozeco cujo nome era João qualquer coisa, se bem me lembro. Foram essas discussões que me levaram a estudar o assunto, tanto quanto um leigo pode estudar e a inscrever-me num dos lados do debate. O mesmo se passa com o debate sobre a Palestina. Ouvi e li argumentos e só depois construí a minha opinião. (Nb: falta-me ler em primeira mão Edward Said, mas do que dele sei penso que não mudará muito a minha posição. Quando muito, aprofundá-la-á.)

No meu posicionamento político há obviamente um enorme factor pessoal, incontrolável: a minha incapacidade de me incluir em grupos, clubes, escolas, associações ou seja o que for  que cheire a colectivo (com a notória excepção de uma tripulação e mesmo essas escolhidas) e portanto nunca poderia ser de esquerda. Contudo não é só por fatalidade genética que sou de direita. Como toda a gente passei pela esquerda e só depois decidi que a interpretação da realidade é mais fiel sem os óculos ideológicos e anti-biológicos dos colectivismos.

Talvez como método epistemológico isto não valha muito. Paciência. Tem pelo menos um mérito: as minhas opiniões são construídas, não me caem pré-fabricadas no regaço. E outro: sou capaz de as mudar quando me provam que estou errado. Não é fácil mas é possível. 

1.5.26

O acaso e o livro

Hoje, o livro que o acaso escolheu para mim chama-se a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer (sic). O autor é Stig Dagerman, a editora a Fenda Edições. A "versão" (aspas porque cito) é de Paula Castro e José Daniel Ribeiro.

A "versão" (ditto) é abominável e tem ainda menos desculpas porque este exemplar é a quinta edição. Podiam tê-la revisto. 

Dagerman não é um hino à alegria (de resto suicidou-se aos trinta e um anos) e este livro parece mais uma apologia da depressão do que uma sua descrição. Volto a Gamoneda, o acaso de ontem, que ainda está na mesa de cabeceira. Ainda não chegou o tempo de ser homem para aventuras de uma noite.

"Cada distancia tiene su silencio"

Antonio Gamoneda, in  Descripción de la mentira.

Não sei, crescer

No fundo, crescer não passa disto: poder-se dizer "não sei" cada vez mais de tudo.

Superlativos

Entrámos num tempo de superlativos. Já não basta gostar. Há que amar. Não gostar de transformou-se em odiar. Continuo a viver num mar sem marés,  numa planície sem altos e baixos. Gosto de ti porque não sei amar-te. Gosto de ti porque não sei ser amado. O meu horizonte está demasiado longe, bendito seja. Transforma elefantes em formigas, crocodilos em lagartixas, girafas em miúdos curiosos que se escondem atrás de uma árvore para espiar a vizinha. Quando se vão embora atiram pedras às janelas e tocam às campainhas. O mundo vinga-se: crescem. Superlativizam-se. Um dia morrerão. 

Sólo es legible el libro de lo incierto

El óxido se posó en mi lengua como el sabor de una desaparición.

El olvido entró en mi lengua y no tuve otra conducta que el olvido,

y no acepté otro valor que la imposibilidad.

Como un barco calcificado en un país del que se ha retirado el mar,

escuché la rendición de mis huesos depositándose en el descanso;

escuché la huida de los insectos y la retracción de la sombra al ingresar en lo que quedaba de mí;

escuché hasta que la verdad dejó de existir en el espacio y en mi espíritu,

y no pude resistir la perfección del silencio.

No creo en las invocaciones pero las invocaciones creen en mí:

han venido otra vez como líquenes inevitables.

La fermentación del verano se introduce en mi corazón y mis manos se deslizan cansadas en la lentitud.

Vienen rostros sin proyectar sombra ni hacer crujir la sencillez del aire;

sin osamenta ni tránsito, como si consistieran únicamente en el contenido de mis ojos, en la unidad de mis palabras, en el espesor de mis oídos.

Son obedientes y yo siento su reunión como una salud que se refugia en la oscuridad.

Es una amistad dentro de mí mismo;

es un estambre urdido por manos que son suaves en el interior de los días.

Ahora es verano y me proveo de alquitranes y espinas y lápices iniciados,

y las sentencias suben hacia las cánulas de mis oídos.

He salido de la habitación obstinada.

Puedo hallar leche en frutos abandonados y escuchar llanto en un hospital vacío.

La prosperidad de mi lengua se revela en cuanto fue olvidado durante mucho tiempo y sin embargo visitado por las aguas.

Éste es un año de cansancio. Verdaderamente es un año muy viejo.

Éste es el año de la necesidad.

Durante quinientas semanas he estado ausente de mis designios,

depositado en nódulos y silencioso hasta la maldición.

Mientras tanto la tortura ha pactado con las palabras.

Ahora un rostro sonríe y su sonrisa se deposita sobre mis labios,

y la advertencia de su música explica todas las pérdidas y me acompaña.

Habla de mí como una vibración de pájaros que hubiesen desaparecido y retornasen;

habla de mí con labios que todavía responden a la dulzura de unos párpados.

* * *

La naturaleza de los cuerpos es fingir la existencia y este conocimiento es el fin de un espíritu rodeado por ávidas gallinas en los preámbulos.

Lee en las láminas de vidrio: los argumentos del placer y los capítulos de la destrucción atravesados por una sola mirada. ¿Quién habla en esta transparencia?

Sólo es legible el libro de lo incierto.

El afilador que posee en sus cánulas una sola nota, clara como una serpiente, creadora de la niñez en un espacio de hombres vigilados, no es más feliz que su propia música destinada al invierno.

Así es el rostro de tu madre.

Nuestra pasión es trivial: una enseñanza atribuida a pájaros sobre la nieve, a los volúmenes cuya visión es la forma más perfecta de la tristeza.

Y la convicción crece únicamente en el paladar de hombres aptos para la administración de la muerte, hombres cuyas azumbres están llenas de líquidos más decisivos que el dolor.

Mas, los incrédulos, desposeídos de conducta, ¿qué iglesia luce en nuestros gemidos?

Hay indicios en narraciones impecables: el vendedor de higos chumbos cuya pobreza está bajo la luz y sonreía cerca del cuchillo y la limpieza de su acto era una lámpara increíble, una prueba exquisita de la inexistencia coronada de gritos en la celebración del mercado.

O, en los jardines del verano, el muro quieto en la imposibilidad, externo a un espesor de líneas invisibles, un espesor dotado de melancolía.

O, más aún, en tu chaqueta abandonada y entreabierta, es decir, en una forma que describe tu desaparición.

Esta perplejidad es la conciencia. El miedo ejerce de pastor, pero no sabes más de ti que un animal absorto sobre el agua.

* * *

El olvido es mi patria vigilada y aún tuve un país más grande y desconocido.

He retornado entre un silencio de párpados a aquellos bosques en que fui perseguido por presentimientos y proposiciones de hombres enfermos.

Es aquí donde el miedo ve la fuerza de tu rostro: tu realidad en la desaparición

(que se extendía como la lluvia en el fondo de la noche; más lenta que la tristeza, más húmeda que labios sobre mi cuerpo).

Eran los grandes días de la traición.

Me alimentaba la fosforescencia. Tú creaste la mentira entre las piernas de mi madre; no existía el dolor y tú creaste la compasión.

Tú volvías a las hortensias.

Y sollozaste bajo la lente de los comisarios.

Y vi la luz de la inutilidad.

Mi boca es fría en las plegarias. Este relato incomprensible es lo que queda de nosotros. La traición prospera en corazones inviolables.

Profundidad de la mentira: todos mis actos en el espejo de la muerte. Y los carbones resplandecen sobre la piel de héroes aún despiertos en el umbral de la imbecilidad.

Y ese alarido entre cristales, esas heridas que no son visibles más que en el instante del amor…

¿Qué hora es ésta, qué yerba crece en nuestra juventud?

Antonio Gamoneda in Descripción de la mentira, ed. Abada editores.

Só a (boa) poesia pode descrever a noite quando esta se transforma em silêncio. 

Eu?

Todos chegamos a uma idade em que a noite já não é o futuro. É o passado. O "touro furioso" abandonou a arena e fica-se entregue a si mesmo. Já não há animais a domar nem a vertigem de se ser domado. A idade da contemplação e da reflexão (o passado é um espelho e uma interrogação). 

É para isto que se vive. Para se poder olhar para trás e ver-se ao espelho e poder perguntar-se "Sou eu? Fui eu?"