19.5.12

A minha vida sexual (algumas notas para uso posterior, salvo seja)

A vida sexual de um talhante tem muito pouco interesse. Não sei, portanto, porque há tantas pessoas (de ambos os sexos) a pedir-me que a conte. Como já devo ter dito sou proprietário de um talho numa cidade média do interior do país. Sou extremamente rigoroso - até comprei uma balança Mettler-Toledo, apesar do seu preço -; e casado com uma senhora chamada Teresa que, antes de eu a proibir de trabalhar fora de casa era psicóloga e agora escreve coisas num sítio chamado Facebook e noutro chamado Blog (não leio nenhum deles, nem nenhum outro, de resto; a informática não me interessa. Gosto de coisas com cheiro e sangue).

Mas a verdade é que as pessoas pedem-me e, como é meu hábito, eu digo que sim.  Foi desta forma que juntei um apreciável tesouro de guerra - dizendo "sim, minha senhora" (e às vezes "sim senhor", há cada vez mais homens a viver sozinhos e a fazer compras). Por isso aqui deixo uma breve descrição da minha vida sexual, salvaguardando, claro, todos os dados comprometedores (e excluindo liminarmente a minha vida conjugal, porque todos conhecem a Teresa).

Ora bem: é preciso começar por dizer que a minha vida sexual tem pouco interesse. Sou um homem rigoroso, e o rigor, dizem-me por vezes algumas senhoras, não vai bem com a actividade sexual. Eu acho que sim, que o rigor vai bem com tudo; mas algumas das senhoras discordam, e eu não as contradigo. Antes pelo contrário, digo "sim, querida" e cada um vai à sua vida.

Por exemplo, a questão das posições. Identifiquei dez posições de que gosto, e mudo-as todos os domingos. Se uma senhora quer variedade, basta-lhe começar por exemplo a um sábado e ficar comigo até segunda-feira. Raras são as que aguentam tanto tempo (dizem elas; por mim, três dias passam num instante); mas as que ficam gostam e elogiam-me bastante.

Devo dizer que é muito raro não ter "uma senhora". Penso que aquela mistura de precisão e de sangue, de carne viva, excita a líbido de muitas das minhas clientes, que me deixam, imaginem, números de telefone no meio das notas com que me pagam (em francês isso vê-se logo, basta atentar na semelhança entre bite e bidoche: a mesma primeira sílaba, a mesma letra final). Eu ligo a quase todas - basta não serem demasiado magras ou demasiado gordas, demasiado altas ou baixas, novas ou velhas. Sou um homem mediano e quero manter-me assim. Só abro excepções se elas o merecerem, ou eu estiver um bocadinho a seco. Porque também tenho necessidades, não se pense que lá por ser talhante (há quem me chame açougueiro, mas eu acho o termo inadequado e incorrecto) estou isento delas.

Outra coisa importante: a conversa. Eu sou contra a conversa. Acho que as pessoas se encontram com um determinado objectivo, e esse objectivo deve ser atingido o mais depressa possível. Raras, porém - se bem existam - são as senhoras que partilham esse ponto de vista. Como sempre e em tudo, eu acedo e falo com elas. Mas falo o mínimo necessário para as satisfazer. Nada de conversa de chacha, comigo. Querem conversa, têm-na; têm conversa que chega, eu calo-me (descobri que uma maneira de chegar a esta fase rapidamente é falar-lhes do prazer que a minha profissão me dá, e contar-lhes um máximo de pormenores).

Práticas: quer queiramos quer não, sexo consiste na penetração de uma vagina por um pénis. Tudo o mais é redundante; off topic, como dizem alguns ingleses que eu conheço. Mas algumas senhoras insistem e querem fazer-me coisas. Eu deixo, mas aviso-as sempre "não haverá reciprocidade" (não gosto de surpresas, seja de fazê-las ou de as sofrer).

Quantidade: é o único ponto em que todas as senhoras (pelo menos até agora) concordaram imediatamente comigo. Ainda não tive uma opinião divergente: a penetração deve ocorrer um mínimo de três vezes e um máximo de cinco por noite (é verdade que algumas senhoras exprimem uma certa insatisfação devido à - na opinião delas - "monotonia das posições"; mas isso diz respeito a outro tema. Na questão da quantidade tem havido uma agradável unanimidade). Porquê um máximo, perguntar-me-ão alguns?  Porque acima de cinco penetrações por noite a vagina da senhora fica muito dorida e ela deixa de ter prazer.

Estes são os aspectos da minha vida sexual que acho mais interessantes. Espero ter satisfeito todos aqueles dos meus clientes que me têm pedido "conta, conta". E, sobretudo, que voltem ao talho, claro.