21.3.13

O muro

É um tipo dos seus sessenta anos; vejo-o muitas vezes nos bares e cafés da nossa "cidade" (com aspas, porque não passa de uma aldeola a que só a indigência mental dos nossos autarcas e governantes permite chamar cidade). Anda quase sempre sozinho. Pede uma garrafa de vinho tinto (a mesma marca) e bebe-a, metódica, regularmente, copo a copo. Cumprimentamo-nos, mas não nos conhecemos. Hoje o café estava cheio e perguntei-lhe se se importava que me sentasse à sua mesa.

- Claro, sente-se. Com muito prazer. O meu nome é ...

Era estranhamente afável, para uma pessoa que raramente vejo acompanhada.

A nossa conversa começou, depois das cordialidades habituais, quando eu lhe disse que lhe admirava o método com que o via beber o vinho, sempre muito calmo, nunca um excesso, com a regularidade de um autocarro suíço.

- Sabe, sou um tipo metódico em tudo o que faço. Passei muitos anos a erigir um muro à minha volta (ou melhor, dentro de mim). Não o estou a aborrecer, pois não? As pessoas solitárias abrem-se muito facilmente com estranhos, não é? Nós não somos bem estranhos, cruzamo-nos muitas vezes. Enfim, continuando: construí esse muro porque em jovem era muito emotivo, muito sentimental, presa constante de vastas e tumultuosas emoções. Passei anos a pôr-lhe defesa em cima de defesa, a acarinhá-lo, a aprender a usá-lo.

É um muro que exige uma atenção constante, precisa de muito carinho. Há uns anos apaixonei-me por uma senhora, uma rapariga (era quase da minha idade, mas não tinha idade) excepcional, bondosa, inteligente, complexa como já não se fazem. Gosto de pessoas complexas, sabe? São o complemento ideal para a minha platitude. Sou um tipo chato, sensaborão, banal. Vejo-o sorrir. Não estou à pesca de cumprimentos.

A verdade é que essa rapariga (ou senhora, ou mulher, como preferir) me seduziu, me encantou, me transportou para um mundo que eu desconhecia totalmente: o da alegria.

Mas eu levei comigo o meu muro. Já andava com ele há tanto tempo que não sabia dar um passo sem ele, fora dele. Acontecia-me mesmo esquecer-me dele. E um dia ela fartou-se, claro. Sabe como são as mulheres: quando dizem que não é não. Nós somos mais dados ao compromisso, ao nem sim mas também. Elas não: quando cortam cortam de vez, como cortam o cordão umbilical.

E o meu muro voou em estilhaços. Era um monte de cacos espalhados por aí, inúteis, irrecuperáveis.

Foi há três anos. Ainda estou a pensar se devo voltar a construir um muro, ou se devo aprender a viver nu no meio das emoções e sentimentos. Verdade seja dita que neste momento não tenho emoções nem sentimentos nem nada disso, graças a Deus. Mas nunca se sabe, não acha?