17.5.13

Märklin

Regresso ao hotel onde pela última vez nos vimos, dormimos, amámos. Não sei se foi ontem, se há dez anos se talvez mais ainda. Sei que regresso ao hotel, ao quarto onde me explicaste que não podias continuar a viver comigo porque circunstâncias para lá do teu controle to impediam. Não sei quando foi, tenho má memória para o tempo, passa por mim e não pára para descarregar nem embarcar uma emoção que seja, como os comboios Märklin com os quais ainda há pouco brincava, mas sei que os lençóis ainda estão quentes, o homem da recepção perguntou-me "hoje a sua senhora não vem?" eu respondi-lhe "não" e ele disse-me "tenho pena, há muitos anos que não a vejo, mas não faz mal o quarto está pronto". Não estava, isto é estava como se o tivesses deixado para ir à casa de banho, a cama ainda quente e eu perdido nele às voltas como um comboio de brincar.

"Não se devem deitar fora os brinquedos quando estão partidos" lembro-me de ter pensado, mas não me lembro de quando o pensei. "Tudo tem conserto, estes comboios são caros, Märklin..." mas a ideia ficou por ali enredada nas voltas do tempo nos lençóis ainda quentes na tua voz meio irónica meio triste, é uma mistura de que só tu és capaz, nunca a ouvi a mais ninguém -  nem vi, que o sorriso é igual, meio triste meio irónico ambos igualmente verdadeiros, sentidos, e eu nunca sei qual das metades escolher, opto sempre pela metade errada, pelo menos é o que tu me dizes "não percebes nada" "não" ... "não andes para aí às voltas, isto está estragado, mais vale deitares para o lixo, se não for agora será amanhã".

Não foi amanhã, foi muitos anos depois, não foi? Ou terá sido ontem? Não sei.