3.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 03-07-2013

A cidade do Panamá é a minha casa (enfim, seria mais correcto dizer a minha casa está na cidade do Panamá); é bom voltar para casa (quase. Ainda não fui a bordo) depois de umas boas férias. E as férias foram boas, óptimas, magníficas.

Foram tudo o que as férias de emigrante devem ser, suponho: insuficientes para se ver toda a gente que se queria ver e visitar todos os lugares e provar todos os pratos, mas suficientes para dar vontade de regressar daqui a um ano.

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O dia começou com um passeio a pé pela Cinta Costera, a marginal da cidade do Panamá. Fui para Oeste, para o lado dos prédios. Ainda não eram sete e meia, mas o sol já ia alto. Estava tapado por alguma nebulosidade de altitude (cirrostratus, a quem interessar) e ao longe os prédios pareciam uma floresta de bambus que alguém cortara a meia altura, mesmo antes de as folhas começarem. São muito estreitos e altos, muito próximos uns dos outros. Visualmente o efeito resulta agradável. Confesso que nunca percebi a aversão dso portugueses aos prédios altos. Há alguns maus, claro - o de Ponta Delgada vem imediatamente à memória - mas lamento, por exemplo, que a torre de Siza Vieira em Alcântara não tenha sido aprovada.

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Crise política em Portugal. Parece um exemplo de redundância num verbete de dicionário. As pessoas reclamam contra os "interesses pessoais" que os políticos põem à frente dos interesses do país. O raciocínio é falacioso. Prefiro de longe políticos com interesses pessoais a governantes sem eles - padres, militares e outros benfeitores (isto assumindo que também não têm interesses pessoais, mas isso fica para outras missas).

A questão é saber o que se exige dos políticos em troca da satisfação dos seus interesses pessoais; infelizmente o povo português pede muito pouco em troca. E pedirá sempre. O respeitinho é cobardolas por natureza.

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Os trabalhos no Artie atrasaram-se. É muito raro isto acontecer. Normalmente nos barcos os prazos são cumpridos - e se não é porque estão adiantados - as surpresas são sempre boas, os custos muito inferiores aos orçamentos, os fornecedores de serviços ainda mais competentes e sérios do que nos disseram quando falámos ela primeira vez com eles, e a verdadeira dimensão das reparações a fazer muito inferior ao que tínhamos pensado quando os contratámos.

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O caos visual, a sujidade, o barulho, a poluição, a negligência com os equipamentos públicos aqui são muito inferiores aos do Brasil, de longe (pelo menos aos do Brasil que eu conheço, nunca é de mais repetir). Mas não há dúvida: estamos na mesma área cultural. Quem olha para os prédios e para as ruas que lhes ficam próximas vê uma cidade; anda dois quarteirões (os quais até são pequenos) e vê outra.

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Em Outubro a casa muda. Volta para a outra casa, no lado de lá do istmo. Vai ser tão voltar para aquela casa como foi para esta; melhor, muito melhor. Com os CD praticamente todos. Vinte quilos de discos. Infelizmente não chega para redefinir casa: faltam os livros, e esses pesam muito mais.

Mas uma coisa é certa: há uma casa no horizonte.