4.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 03-07-2013 - II

T. é um jovem (25 anos) tripulante do Nautitech 452 que está amarrado na bóia ao lado da minha. Encontrei-o na panga [bote] do clube. Fomos jantar ao Casco Viejo; fiz-lhe, e a mim, o passeio quase todo: Rana Dorada, Habana Vieja, Louvaina, onde jantámos.

A conversa começou com temas anódinos, habituais: os prédios a cair, a desigualdade social (4x4 ao lado de prédios a cair), as perspectivas profissionais de T. (tem muitas, o rapaz tem ar de e deve ser competente).

Depois, com um muito ligeiro pré-aviso passa para a vida afectiva. T. está indeciso, coitado, entre uma mulher por quem está disposto a largar tudo e outra que está disposta a largar tudo por ele. É um tema que me apaixona, não sei porquê. Falamos um bom bocado das dificuldades que esta vida (esta vida sendo a de um marinheiro na náutica de recreio) traz para a vida afectiva. Do alto dos meus cinquenta e cinco anos (e algumas vidas) explico-lhe uma série de coisas. No fundo falava para mim, era a mim que me explicava uma verdade que agora me parece simples: esta vida é feita para iguais, não suporta a diferença.

Ponho T. num táxi e pergunto-me no caminho de regresso ao hotel, que faço a pé, porque demorei tanto tempo e precisei de sofrer tanto para perceber esta verdade elementar.

As verdades elementares são as piores (ou melhores, depende do ponto de vista).