20.9.13

A culpa e o pastis em Marselha

Pensei muitos anos nesta conversa; não sei onde a tive, nem com quem. Gosto de imaginar que foi com um senhor velho, muito magro, com umas barbas enormes. Falava muito, mas assim que o seu copo chegava ao fim calava-se e era preciso pagar-lhe outro para continuar. De que seria o copo? Fácil: ou ouzo, ou raki ou pastis. Mediterrâneo,  portanto.

O homem era alto, magro, a voz saía-lhe filtrada pelas barbas e pelo bigode, que não viam uma tesoura há muitos anos. "Não sei", respondeu-me quando lhe perguntei quantos.

Estávamos portanto num bar de um porto do Mediterrâneo. Fica decidido que era Marselha, e o bar um restaurante judeu por trás da catedral. Vamos dar um nome ao meu interlocutor de uma noite. Kurt? Knut? Jean-François? Jean-François não. Fica ou Kurt ou Knut. A história, essa mistura de fantasias, passado e memórias que juntos se transformam em futuro, certezas e ficção decidirá.

Kurt, ou Knut era uma espécie de juke box que em vez de debitar canções debitava palavras; e em vez de consumir moedas consumia pastis.

A certa altura estava um bocadinho farto, ou insuficientemente grosso, e perguntei-lhe se podia escolher o tema do próximo copo (não perguntei assim, claro. Sou polido).

"A culpa? Perguntas-me se já senti culpa? Até aos trinta anos eu era um poço de culpa. Usava a culpa como proxy: substituía a compaixão, a empatia, o arrependimento, a vontade de mudar... Tudo. Tudo desaparecia debaixo do acolhedor e estranhamente confortável cobertor da culpa. Pedia desculpa à minha própria sombra, se necessário fosse. Mas um dia..." Knut deixara a frase a meio, sinal de que o copo tinha acabado. Encomendei dois.

"De que queres que te fale agora?", perguntou quando o copo chegou. "Sei lá. Estavas a falar da culpa. Ias dizer qualquer coisa. Deves ter feito muito mal, para te sentires tão culpado".

"Sempre preferi ser magoado a magoar". A voz de Knut tinha mudado. "E sentia-me culpado porque pensava que estava a magoar alguém,  fosse quem fosse, pelo que quer que fosse."

"Um dia descobri que não era verdade. Conseguia muito bem magoar alguém e sobreviver. Outro dia, meia dúzia de meses depois, descobri que não só sobrevivia como vivia bastante bem."

"E depois finalmente que magoar alguém não é assim tão doloroso. É mesmo melhor do que ser magoado, tal como a ausência de dor é melhor do que a dor e pior do que o prazer."

"Nesse dia perdi a culpa e perdi-me. Agora falo em bares para viver. Sem a culpa não existo. E ela fugiu-me, a cabra".