16.10.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 15-10-2013

Pela primeira vez na vida tentei corromper alguém a crédito.  Não só não consegui como acabei por pagar quase o dobro do que queria pagar. Em si a corrupção não me chateia - prefiro pagar e ter uma licença a não pagar e ir à falência,  como me aconteceu em Portugal (se não paguei não foi por ausência de corrupção; foi porque era ingénuo e achava que não devia pagar). Trezentos e cinquenta dólares.  Poderia ter sido muito pior, e não poderia ter sido muito melhor. M. acha que não me devo queixar; eu penso que se fosse melhor negociador teria conseguido pagar menos. Não sei. Está pago, tenho aquilo de que precisava (enfim, quase tudo) e quinta-feira tenho os primeiros clientes pagantes. Há pessoas que barafustam contra a corrupção.  Preferem passar anos a agonizar. Não percebem que conseguir qualquer coisa mais depressa só porque se é amigo ou primo é uma forma de corrupção ainda pior, mais discriminatória do que pagar trezentos e cinquenta dólares a um capitão de porto repelente.

A verdade é que não estou aqui para mudar o Panamá; isso compete aos panamianos e aos políticos que elegem.

Penso em todos os episódios de corrupção pelos quais já passei - dos dez por cento que o governador do Manyena cobrava por toda a ajuda humanitária a um grupo de trinta e seis mil pessoas (é muita gente, acreditem)  até aos duzentos e cinquenta dólares da fronteira do Zaire (passando pelo BMW "para a minha mulher" de um Inspector Geral de Navios em Lisboa e esquecendo os milhares de episódios em Moçambique) e concluo que o governante moçambicano que me disse "o funcionariado público deve ser pago directamente palos privados, e não através dos impostos" (ou coisa que o valha) estava podre de razão.

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A verdade é que entre a notícia dos primeiros clientes até à de que vou ser pago por uma travessia que fiz o ano passado as boas notícias cobriram largamente o capitão de porto e respectivo cheiro.

Começo a a afeiçoar-me ao meu querido HELENA S. Talvez seja um passo para me ensinar a compreender, aceitar e conviver com os meus sentimentos (com as emoções será talvez mais complicado, mas lá chegarei).

O que dito assim soa um bocado estúpido,  porque se há alguém sentimentalão e maricas sou eu.