9.11.13

Diário de Bordos - Lisboa, 09-11-2013

Ontem fui ao teatro ver Ah! Os dias felizes. Ao princípio a actriz parecia um pouco perdida, como se estivesse a recitar um texto que não percebia. Depois melhorou. Porém nunca a achei extraordinária, e quanto a mim ficou longe de merecer os Bravo de uma parte da audiência. Beckett é difícil, exige actores muito acima da média. Fica-se facilmente com a impressão de que estão a contar-nos uma história, e não a vivê-la.

Mas a peça estava bem encenada, com rigor; o cenário estava bem feito; a iluminação eficaz, simples e dura. Resumindo, foi uma boa noite de teatro, se não excepcional.

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Conheci também - deveria dizer finalmente? - uma jovem poeta e artista plástica cujo trabalho acompanho e aprecio há muito tempo. Chama-se Alexandra Antunes, tem e dirige a editora Mecanismo Humano e estava na Ler Devagar a distribuir dois dos seus livros: 33, o mais recente e na minha opinião melhor;  e Um ponto intenso a meio da eternidade.

A julgar pelos frontispícios o Ponto é pouco anterior ao 33; mas houve uma grande evolução de um para outro. Não sou grande crítico de poesia - nem de outra coisa qualquer - e poupo os já bastante tolerantes leitores a análises. Mas aconselho-os a comprar e apreciar os livros e a seguir os sites. Têm coisas brilhantes.

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Tu esvazias a máquina e eu encho-a; limpas o pó e eu passo o aspirador; penduras a roupa e eu despenduro-a; sim, vou limpar o topo dos armários... Há pessoas que não gostam de tarefas domésticas, mas eu não as entendo muito bem.

Em Genebra e em Paris as manhãs de sábado são dedicadas aos marchés. Em Lisboa às arrumações. Não chego ao ponto de dizer que são ambas igualmente boas. Longe disso. Mas gosto de arrumar o espaço onde vivo, de limpar os objectos que uso quotidianamente, tratar deles. É uma forma de lhes agradecer a paciência que têm comigo.

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Estamos em Novembro e ando de t-shirt na rua. Lisboa mistura tudo o que há de bom na civilização com o que de melhor se faz em clima. Só é pena não conseguirmos transformar este país num país habitável; nunca será mais do que um país visitável.

Pelo menos para mim.