23.1.14

Rum, silêncio e outras histórias

O rum Abuelo Anejo não é, de modo algum, um bom rum; mas ainda é menos um mau rum. É assim assim. Cumpre fielmente a sua missão: ser bebido e não provocar grandes êxtases.

Uma vez conheci um senhor (Senhor seria mais apropriado) que me disse Vous devriez vous méfier du rhum: c'est une boisson qui rend fou [foi na Martinique, daí o francês]. Percebi, claro, o que ele me queria dizer: irmão, não bebas mais, olha para mim. Não gosto de não-ditos, mas gosto de coisas que são ditas sem palavras.

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Gosto de muitas coisas; de quase tudo, para dizer a verdade. Não gosto da chuva; das pessoas que são como um dia sem vento; e menos ainda das pessoas que são como a chuva: desagrádavel mesmo quando não nos toca.

De resto é preciso procurar muito para encontrar algo ou alguém que me desagrade.

Infelizmente não pára de chover, mas isso é outra história.

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Há chuvas silenciosas? Há silêncios barulhentos, ruidosos, incomodativos, invasivos?

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Como se chama um cocktail composto de rum e silêncio, com uma rodela de lima e uma gota - talvez - de bitter Angostura?

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Uma garrafa de rum Abuelo de um litro custa oito euros. Experimentem comprar um litro de silêncio, para ver. Quinhentas vezes mais, no mínimo.

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Mais vale um silêncio na mão do que dois a voar.
Mais vale um rum na mão do que dois na garrafa.

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A rapariga era simpática, mas precisava de muitas palavras. E não bebia rum.

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Se chovesse rum eu detestaria a chuva?

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Prova da superioridade do rum sobre o whisky: este pode misturar-se com água da chuva.

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Os maus silêncios são como o mau rum: nada é pior do que uma coisa boa mal feita, barata, ordinária.

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A noite está escura como um barril de alcatrão; a chuva alegra-a? Não: dá-lhe sentido.

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Suzanne cantada sobre o Boléro de Ravel. Há coisas piores do que a pior chuva ou o pior silêncio.