15.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 15-02-2014

Estávamos à sec de toile quando chegou o primeiro cliente e pagou uma parte da passagem. Fomos celebrar para a Plaza Trinidade.

Enfim, não é bem verdade: não fomos celebrar. Fomos à Plaza Trinidade porque é ali que se encontram os mochileiros nas noites de sexta-feira e queríamos ver se encontrávamos mais alguém. Razões estrictamente profissionais, portanto. Às quais acresciam o facto de J., o passageiro e amigo de Luka e Danielle, também lá estar com L., a sua alta, grande e inglesa namorada.

L. também faz o Cartagena run, noutro barco. Há muitos, talvez oito ou nove; para obtermos clientes os contactos pessoais são importantes, tanto como os flyers que deixamos por esses albergues e para os quais os recepcionistas olham, salvo raras excepções, com um desinteresse notório. Nem a promessa de uma boa comissão os faz reagir – sinal seguro de que não tencionam tirar clientes de barcos que já conhecem.

Mas enfim, Luka e Danielle conhecem toda a gente e – mais importante – são apreciados por todos. L. é a melhor amiga da mulher do dono (e trabalhadora) da principal agência para estes transportes. Quando lá fomos a senhora mulher do dono disse-nos que só trabalhavam com barcos legalizados na Colômbia – se houver um já é muito, se houver dois abro a boca de espanto e nunca mais a fecho. Aposto que na segunda-feira vamos ter uma recepção diferente.

Por acaso na Plaza Trinidade não encontrámos ninguém para além de J. e L., que estavam cansados e foram deitar-se pouco depois de termos chegado, mas a viagem valeu a pena.

A praça é pequena e fica à frente da igreja creio que do mesmo nome. Às sextas enche-se de gente – locais, turistas de todos os tipos, vendedores ambulantes, um ou outro bêbedo ou crackómano (ambos muito, infinitamente menos do que no Brasil) -.

A atmosfera é amigável, segura, convivial. Alguns jovens comem patacones con todo, uns pratos enormes cujo conteúdo é impossível de definir; as jovens mostram-se, como é seu dever; as músicas do bares não estão demasiado altas e não incomodam.

Que diferença do Panamá e do Brasil. Neste, tudo aquilo cheiraria a mijo, a praca estaria cheia de bêbedos, crackómanos e polícias, a música aos berros. No Panamá o ambiente seria tenso, as pessoas estariam reunidas em pequenos grupos mais ou menos fechados, turistas de um lado e panamianos do outro.

Não gosto do Panamá, e chegando à Colômbia vejo imediatamente porquê – melhor, vejo imediatamente que tenho razão -: as pessoas aqui são afáveis, simpáticas, sorridentes, dizem bom dia e boa tarde e obrigado, riem-se com uma piada. No Panamá parecem os blocos de granito com os quais temos vontade de os atirar ao Canal meia dúzia de dias depois de lá chegarmos – vontade essa que vai crescendo com a permanência no país.

Pergunto a L. qual pensa ser a razão de tanta disparidade entre povos que não são apenas vizinhos, mas já foram a mesma nação, até há relativamente pouco tempo. A culpa é dos americanos, diz sem hesitar. Claro. Como não pensei nisso antes?

Enfim, deixo de lado os porquês e concentro-me no casamento que começa a sair da igreja. Parece-me extraordinário que pessoas escolham casar-se sexta-feira à noite numa igreja que dá para uma praça cheia de gente. É frequente, diz-me J., um colombiano adorável, reparador de dinghies, carpinteiro naval e (dizem-me Luka e Danielle aprovadoramente) sonhador. J. quer fazer uma escola de vela em Cartagena, uma escola como deve ser, com Optimists e Lasers e tudo. Intuitivamente aprovo o sonho, claro; e dou por mim a discutir pormenores com os meus dois jovens, adoráveis e competentes tripulantes.

A verdade é que a economia colombiana está bastante forte e a classe média nascente não tem muito oferta; ou pelo menos suficiente. Meia dúzia de Optimists seria com certeza rentável.

Mas eu tenho o meu Helena, e sou europeu; por muito que goste da ideia e da cidade não é aqui que vou parar. Se bem não me importasse nada de cá voltar...

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S. sabe tudo sobre o Cartagena run, como chamo a estas viagens. Proprietário ou gerente de um dos maiores albergues de Cartagena explica-me, suffisant e cheio de si, que foi ele o primeiro a vender o trajecto. Começou há dez anos.

Diz-me que os preços vão subir (isto porque acha os meus demasiado baratos) e fala muito. Não fala para mim: gosta de se ouvir falar. Respondo-lhe com duas ou três frases curtas e pouco depois no tom muda. Os miúdos dizem-me que dali não virá ninguém; eu penso que sim, mas com tempo, com algum tempo. Na verdade pouco me importa: não sei se o teremos. Em Maio o Helena vai para o Mediterrâneo trabalhar naquilo para que parece ter sido feito: day charter. O resto é conversa de enfatuados.

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Não se pode ir por terra da Colômbia para o Panamá e os bilhetes de avião são caros: daí o mercado para estes tansportes de mochileiros. Basta aparecer um ferry com capacidade para baixar os preços e S. vai ver onde vão eles parar.

Amanhã vamos almoçar com o armador de um desses ferries, que só não começou ainda a operar por causa de dificuldades burocráticas. É um amigo, mais um, de Luka e Danielle. Estão contentes por vir para a Europa; e eu contente por eles virem.

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E assim passo os dias: na livraria Ábaco, que elegi como escritório; na Oficentro, onde Jhon (sic) faz as alterações aos flyers, os imprime e depois manda plastificar no rés-do-chão; a calcorrear as adoráveis e floridas ruas da cidade velha para os distribuir; e a pensar no que fazer do pobre B., que avança a passo de caracol e mesmo assim só empurrado, empurrado, empurrado.