13.3.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 12-03-2014

Mais um dia na merda. A retrete tinha três problemas, três. Foi preciso montá-la e desmontá-la três vezes. Deito retretes pelos olhos.

Felizmente sai merda e entra paz, e esta é muito mais do que aquela.

Vou cortar a direito pelo Miskitos Bank e fundear à noite; espero que as noites sejam assim sólidas de tão calmas, sem sopro de vento, sem um ruído que não seja feito pelo homem.

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Hoje fui aos correios, pela quinquagésima vez desde que cheguei a Bocas. A D. encomendou um tablet e preciso de o ir buscar - por ela e por mim, pois preciso de cartas e GPS de reserva.

Há dois meses que os correios não recebem encomendas nem cartas. Ao que parece devido à avaria de um veículo automóvel. Imagino as filas, na sexta-feira - se as coisas chegarem, como me disseram, nesse dia -. É pouco provável, penso. Mas por exemplo a bomba chegou hoje, como a B. me disse e eu previ. Optimismo 1 - Realismo 0.

Os realistas - ou pessimistas, como são igualmente conhecidos - perdem sempre, mesmo quando ganham. O mundo deles é um mundo triste, real: as coisas acontecem tal como eles esperam que aconteçam. Nós, os optimistas andamos sempre num estado de perpétuo encanto: as coisas acontecem como esperamos.

Pelo sonho é que vamos, dizia o Sebastião. Pelo e com o sonho, digo eu; de mãos dadas como putos a atravessar uma rua, nós e ele, a cagar no que foi e a pensar no que talvez será.

Enfim, no que será; talvez é uma palavra razoável e os optimistas não gostam de razoabilidades: gostam de certezas e convivem bem com incertezas, o que é diferente e irrazoável.

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Um barco é um pequeno planeta; e o A. F.  um planeta que se quer separar do planeta-mãe. E eu com ele. "Podia ser pior", dizia-me M. ontem. "Podias estar em Shelter Bay, por exemplo". É verdade. Tudo podia ser sempre pior.

Ou melhor. Pode ser-se optimista sem ser parvo.