17.3.14

Pintar, viver

Não sei que te diga, mulher, e por isso não digo nada. Que queres que te diga? Que pensas que devo dizer? Tenho um frango ao lume, sempre é mais rápido do que o outro, que tinha javalis e tenho música boa para ouvir e uma lua cheia para admirar e uma noite para sonhar e mil mares por navegar e sei lá, com um pouco de sorte talvez ainda tenha mil mulheres por conhecer, se bem duvide muito. Sei ser engatado mas não sei engatar, falta-me o jeito e o palavrio e isto sem palavras não há cama para ninguém, não é?

É. E sem sentido de humor não há pila para ninguém e sem sei lá o quê não há nada para ninguém e sem seja o que for não háo há seja o que for para ninguém. De maneira encontrar o que nos une é muito mais difícil do que encontrar o que nos separa, isso encontramos logo.

Que se lixe. Quedemo-nos pela ausência de palavras, são elas que estão na origem de tudo, o Courbet enganou-se. Mas faz-vos sentir tão importantes, não é, aquele quadro? Faz, eu sei. A Origem do Mundo e outras balelas numa pentelheira (como já não se usam, que pena). E nada mais, nem uma palavra.

Que sorte, que inspiração teve o Courbet quando pintou aquilo, não? Não. A inspiração foi quando lhe deu o título.

Eu não sei pintar e ainda menos falar. Mas lá vou vivendo, que dizer mais? Que posso dizer mais? Nada, minha querida. Nada.