2.5.14

Reedição (está quase)

Já experimentei viver no campo várias vezes, mas nunca funcionou. Penso que tenho alergia à clorofila e apanho, muito rapidamente, intoxicações de verde. O meu oxigénio é a cidade. Se bem goste de me passear pelos jardins - são bonitos, verdes e muitos (e dos melhores) estão perto de minha casa.

Não é portanto de estranhar que prefira ver os dois largos ao pé de minha casa sem árvores. Num deles caíram, por causa do vento. No outro foram abatidas, sem dúvida pela mesma razão. Os largos ficam muito melhor assim, nus. Mais claros, luminosos, amplos, espaçosos. A vista melhorou substancialmente, e a luz também. O lugar das árvores é no campo, ou nos jardins das cidades.

As cidades têm coisas que não mudam com o vento: os Alexanders do Procópio, por exemplo, ou os do Pavilhão Chinês; o bacalhau da Floresta do Salitre (o nome é uma doce ironia) onde fui pela primeira vez muito recentemente e descobri que sou cliente desde e para sempre; a promoção da Ribadouro, ao fim da tarde. É possível comer Leitão à Bairrada em Lisboa, mas não comer um bife à Marrare na Mealhada; nas cidades há avenidas como a da Liberdade (que por sinal tem montes de árvores) e vistas como a do jardim de S. Pedro de Alcântara, ou do Miradouro de Santa Catarina; e bairros como o Bairro Azul, que acho muito mais bonito do que Campo de Ourique, ou como o Campo de Ourique, que apesar disso é muito bonito (o meu oxigénio são as cidades, mas o oxigénio das cidades é Lisboa).

As cidades têm pessoas que são excêntricas e não são malucas; ou originais e não são excêntricas; ou malucas e originais, como se tivessem cinco filhos, gostassem de chocolate e aos domingos fossem passear para os jardins. As cidades têm de tudo, porque as cidades são tudo (também gosto do mar, mas isso é porque no mar não há nada, rigorosamente nada do que há nas cidades). As cidades têm tudo aquilo de que um homem - ou mesmo uma pessoa - pode precisar: árvores, o rio Tejo, avenidas e pessoas adoráveis, excêntricas, originais (com filhos ou sem eles), Alexanders sublimes e restaurantes onde os rojões à Minhota não são rojões nem são à Minhota mas apesar disso são bons; têm bairros onde é impossível estacionar mas têm táxis; têm três apresentações de livros no mesmo dia e metro para ir de umas para as outras; senhoras com quem se pode ir jantar, outras que não gostam de nós e outras ainda por quem nos apaixonamos mal as vemos, lemos ou tocamos. Não é por acaso que ser "urbano" é diferente de ser "campónio".

Lisboa é uma cidade como as outras, em melhor, penso eu; apesar de ter coisas que as outras cidades do seu grupo não têm: prédios em ruínas, devolutos, lixo nas ruas, carros estacionados em todo o lado, até em cima das árvores, se pudessem. Lisboa tem isso tudo, e apesar disso tudo resiste. É uma puta linda, Lisboa, linda mas desmazelada porque os chulos que há tanto tempo a chulam não lhe ligam nenhuma - e apesar disso continua a ser a puta mais linda do quarteirão, porque se adivinha, por detrás do desmazelo e dos automóveis e do lixo nos passeios e dos sinais para peões que são mais fugazes do que o cometa Haley e estão verdes ao mesmo ritmo do que ele um corpo lindo, uma resistência férrea, estóica, indomável, subcutânea, intravenosa, arraigada. Lisboa vale mais do que os chulos todos; puta velha, esburacada, suja, escanzelada - mas linda. Bastar-lhe-iam um duche e meia dúzia de vestidos novos, e Lisboa seria a mais linda do bairro dela. Já é.