16.5.14

Reedição - O tempo e a vida, sobrevida

O tempo é reacças e resolveu ir passear para o campo porque estava farto de ver senhoras de meia-idade com cuecas de adolescente; mas tropeçou numa linha de caminho-de-ferro que por ali estava meio enterrada e ficou tem-te não caias com os braços às voltas como se tivesse a remar ao contrário, pelo que toda a gente parou a olhá-lo, sentada no café. Um cantor inventou uma canção cujo tema era Ó tempo volta para trás, um poeta declamou, numa voz esganiçada, histérica, Il faut être absolument moderne, e o tempo não sabia para que lado cair, se caísse.

Finalmente conseguiu sentar-se para descansar e se recompor. Parecia um manga-de-alpaca: não se mexia. Quando o tempo se disfarça de burocrata tudo pára, mesmo a vida, que é o único sinal visível do tempo. O mundo estava imóvel. Os peixes, que precisam de movimento para respirar asfixiavam; o vento andava às voltas, sem alento; as cuecas de adolescente das senhoras de meia-idade deixaram de se ver. Uma vida sem tempo parece um quadro naïf: nada se mexe, nada respira, nada vibra.

No fundo o grande problema do tempo é que só sabe andar para a frente, contrariamente ao que lhe pedia o cantor. Toda a gente pensa que ele é corajoso por isso; não é. É inevitável, o que é diferente. Corajoso é o exacto oposto de inevitável. O tempo é uma mentira; a coragem não.

Aos poucos o tempo recompõe-se; a vida volta; as saias das senhoras saltitam e os seios também; o tempo distrai-se e arrota. A vida recomeça. O tempo arrota outra vez. Toda a gente olha para ele. “É a vida”, explica. Esta riposta e diz que não.

O tempo e a vida pegam-se; são um casal muito antigo. Tudo volta ao normal. Pelo sim pelo não o tempo manda retirar as linhas de caminho de ferro que estavam, descobre-se agora, enterradas nele próprio. A vida continua. O tempo decide, uma vez mais, que não vale a pena matar-se. “Sempre vivi com duas linhas de caminho-de-ferro enfiadas no peito e sobrevivi”, explica-se. A sequência "vida / sobrevida" diverte-o. A vida vê-o sorrir e diz-lhe “anda, vamos para a cama”.

“Sobre a vida”, pensa, saciado. Ela adormece, satisfeita, a cabeça no peito do tempo. Antes de adormecer pensa “este sacana fode-me como nunca ninguém fodeu”.