24.5.14

Reflexões tristes de uma manhã de sábado. Manhã no sentido lato, claro

Hoje parti dois copos. Dois copos, dos mais bonitos que a minha anfitriã tem. Não sei se por causa de um jogador de futebol que não consegue mijar, se por outra razão qualquer. Não sei o que fazer (para além de comprar copos iguais, claro; ou pelo menos parecidos).

É indecente. Já em Shelter Bay parti dois copos à Nike, dois dos mais bonitos que ela tinha. Os copos partidos andam aos pares. Estou desfeito, de rastos. É que um copo compreende-se e aceita-se; mas dois!

Claro que não é isso que me impedirá de continuar a lavar a loiça (e gostar de o fazer). Mas bolas, dois copos é muito copo. Felizmente estavam vazios, se não haveria cerveja a lamentar também.

Enfim, hoje vou fazer um frango com leite de coco; ou com farinheira, não sei ainda. Ou com chouriço, alheira, pimentos. O meu estado de confusão é muito grande. Dois copos partidos - um por cada cerveja. Ao menos o ratio com os copos da Nike foi melhor - um copo por cada garrafa de vinho mais meia dúzia de runs, ou assim. Um copo por mini é inaceitável.

Ainda por cima mini. É um formato de maricas e mães de família que foi incompreensivelmente adaptado por toda a gente, incluindo homens. Eu não gosto muito, mas isso deve-se ao facto de não ser mãe de família, suponho.

Se tivesse bebido dois litros de cerveja e tivesse partido dois copos ainda vá que não fosse. Ou bebido dois copos e partido dois litros.  Não sei.

Vou passear, para desmoer a tensão. Dois copos! E logo dos mais bonitos que ela tem.

Estou a repetir-me. É altura de parar. Vou sair. É sábado. Nunca mais é domingo! Domingo vai ser um dia bom, eu sei. Enfim, se conseguir não partir copos, claro. Arruina-nos um dia. Mas sábado é um dia chato, longo, interminável. Especialmente este, que começou mal. Pode ser que acabe bem, que o frango fique bom, que o metro não esteja cheio de espanhóis adeptos de futebol (hoje jogam duas equipas espanholas).

No outro dia em Bocas del Toro, no Panamá, estava a falar com um espanhol. Disse-me que havia um jogo de futebol que queria ver e eu perguntei-lhe quem ia jogar. ele respondeu que era o Real Madrid. Como não percebo nada de futebol mas queria ser simpático perguntei-lhe de onde era o Real. O senhor ficou um bocadinho surpreendido, mas também era educado e não disse nada. Enfim, disse: disse que o Real Madrid é um clube e que ia jogar contra outro clube qualquer.

Não percebo nada de futebol; a verdade é que pouco me interessa. Se me pedissem para escrever sobre futebol teria um belo conjunto de anedotas para contar.

Como daquela vez em que o taxista me disse "aqui é a casa do Simão Sabrosa" e eu lhe perguntei quem é o Simão Sabrosa? O homem ia tendo uma apoplexia ao volante, olhava para trás incrédulo e eu aflito dizia-lhe ponha as mãos no voilante, olhe para a frente, cuidado, não não sei.

Hoje sei: era um jogador do Benfica. O futebol interessa-me pouco, e não percebo a idolatria de que os seus jogadores são alvo.

Não percebo idolatria nenhuma, de resto. Nem a admiração por coisas e pessoas nem nada disso que faz de um fã um fã, seja de futebol, de uma igreja ou de um partido. Sou independente. Enfim sou dependente, mas da minha independência. Não é a mesma coisa do que ser dependente de um idiota qualquer que não pode mijar, ou de outro que nos diz que tem o corpo numa hóstia ou que o vinho tinto é o sangue dele (porra, deus nos livre) ou que a solução dos nossos problemas é aumentar os impostos ou matar os burgueses ou expulsar os estrangeiros ou que resolve tudo se votarmos nele.

Não voto. Quero que eles se fodam. Votei uma vez na vida e chega.

Também não tenho dinheiro, mas isso não tem nada a ver com a independência ou com o voto.  Nem sequer com os copos partidos. Claro que se tivesse mais dinheiro ficaria menos preocupado com os copos. Não sei. Talvez. E talvez percebesse mais de  futebol, soubesse quem é o Scolari ou o Jesus ou o Sabrosa sem que as pessoas tenham de me ensinar de permeio com exclamações mais ou menos incrédulas.

A verdade é que sei fazer as coisas que me interessam: navegar, ler, amar (enfim, isto presta-se a discussões. Mas acredito que sim, que um dia saberei amar-te como mereces, e assim por diante).

É um sábado chato e longo. Vou passear. Pode ser que veja copos giros numa montra, ou cervejas grandes noutra.