24.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 23-06-2014

O jogo e o silêncio acabaram mais ou menos ao mesmo tempo. A vitória era esperada, portanto não houve a explosão para a qual me preparara. Ainda bem. O nível habitual de ruído chega largamente.

Os jogos de futebol - pelo menos os importantes - deviam durar dezoito horas, ou qualquer coisa lá perto. Alguém imagina o que este país seria melhor se percebesse o que é o silêncio? Se imaginasse que o silêncio existe?

Fazem-se apostas em todos os bares, da Pizzeria à tasca da Rosinha, no Tamancão. O bar guarda vinte por cento e o resto divide-se por quem ganhou. Mas não sei quais são os critérios para determinar o que é ganhar, ou como se partilha.

Sei que é levado a sério. Os apostadores falam, cogitam, concentram-se, comentam-se. Infelizmente nunca assisti a uma distribuição do prémio.

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As caipirinhas sem açúcar da Pizzeria são quase tão boas como os mojitos da Rana Dourada. Quase porque prefiro o rum à cachaça.

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"Nós somos penta campeões", diz-me a rapariga ou jovem senhora. Devia andar pelos trinta e quase muitos, gordos e pesados (não é uma redundância). "Se ganharmos seremos hexa, é isso?" A pergunta não é completamente inocente, ela ouviu-me falar com o empregado e sabe que sou português. "Sim. Hexacampeões. É isso" respondo. "E entretanto as pessoas vão continuar a viver na miséria" (ando a reler Dale Carnegie).

A miséria é alucinante, o crack devasta o país, os políticos fazem os nossos passar por ícones de competência e seriedade, a cidade está em ruínas e desabaria não fossem o mijo, a merda e os respectivos cheiros - e o que interessa àquela gaja (e a milhões doutras e outros) é saber se vão ser campeões do mundo outra vez. Vai foder, mulher. E tenta manter a boca fechada, que às vezes até os suspiros são irritantes.

Isto dito, admiro no ser humano esta capacidade de se desviar do que realmente importa. Um cão quando tem fome concentra-se em comer; não inventa campeonatos de hóquei em patins nem sonha com cadelas promíscuas e meio despidas a dançar no meio da rua.

E não inventa deuses, santos, anjos, rezas, missas e vidas depois da morte. Preocupa-se com a vida antes dela, é tudo.

É tudo e é pouco, claro.

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Dúvida existencial.

Em França, e depois na Suíça aprendi francês o melhor possível. Num país de língua inglesa tento falar e escrever correctamente inglês. A mesma coisa num país hispanófono.

Por que raio de carga de água me recuso a falar "brasileiro"? Não haverá por aqui traços de uma arrogância colonialista, ou paternalista ou outra?

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Porque será que poucas pessoas gostam de pedantes? Preferem os demagogos, populistas e incultos? Simples e modestos? Ignorantes e chorosos?

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O Reviver (o bairro no qual se encontra a Pousada na qual me encontro) é uma versão rasca do Bairro Alto. O qual é a versão rasca de um bairro lisboeta.

Possivelmente gostarei muito mais de S. Luís se um dia for viver para outro lado.

Estou farto do povo. Parafraseando a minha filha: ele fede, o vosso povo.

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Em breve estes posts passarão de novo para o Diário de Bordos. Está quase. Ou dito de outro modo: já faltou mais.