25.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 24-06-2014

(É preciso ter muita vontade para escrever estas merdas num tablet manhoso, caracterial e instável de sete polegadas na cama. Ou não ter mais nada que fazer. Infelizmente tenho: devia estar a ler coisas boas em vez de escrever más.

Enfim, foram escritas ao jantar. À mão. Com uma caneta de tinta permanente num bloco notas da Paperblanks, o qual não chega aos calcanhares da Clairefontaine mas tem muito mais pinta. E de qualquer forma ninguém é obrigado a ler.)

Noite de terça-feira. Cheguei na madrugada de sexta. Cinco dias. Tenho finalmente a impressão de que as coisas estão a avançar. "As coisas" é um conjunto díspare de coisas: o barco, a logística, os canais de financiamento, o Fernão Mendes Pinto e outras de que não falo porque não me apetece.

Cada uma destas "coisas" tem sub-coisas. E algumas delas sub-sub-coisas. Todas elas estão a andar. Devagar, claro. É uma máquina silenciosa e lenta e desde Kepler sabemos que nada há de mais bonito do que um mecanismo coordenado, síncrono, oleado. Um universo.

Uma sensação ausente no Panamá ("as a man is so he sees").

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Quando era miúdo gostava - como todos os garotos - de andar nas poças de água. Saltava de uma para a outra; ou escolhia as maiores para maximizar (peço perdão por este barbarismo) a minha permanência, ou a dos meus sapatos, dentro de água.

A intermitente sensação de bem estar - o mais perto que consigo estar da felicidade - que actualmente vivo traz-me à memória as poças de água da minha infância, na pluviosa Quelimane.

Não me queixo. Uma sucessão de poças de água é melhor do que um deserto (e pior do que o mar, claro). Basta ser realista e aproveitar o que há. As coisas são o que são, sejam elas oceanos, charcos nas ruas, desertos ou projectos de construção naval.

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S. Luís está mais perigoso agora do que há dois anos. Hoje falei com um jovem francês que foi assaltado logo a seguir à ponte que da outra vez eu atravessava quase todos os dias.

E a Pizzeria foi assaltada mais duas vezes.

Não há nada a fazer. Não gosto do país, nem da cidade e muito menos do bairro. É uma antipatia fractal: começa no barulho e daí vai para o cheiro, para esta permanente necessidade de festa.

Gosto da simpatia das pessoas - depois do Panamá sinto-me na Lua - da comida de rua (ditto) - e dos rabos das senhoras, que são redondos e cultivados como os arbustos podados dos jardins à francesa. E detesto tantas outras...

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Por mais que faça não consigo não gostar da vida.

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Por uma razão qualquer os ludovicenses gostam de pensar que S. Luis foi fundada por franceses; e não por portugueses. É uma patetice, claro. E patético, se calhar. Não sei. Talvez. Nem sempre a patetice é patética. Oiço a música do S. João - um horror de tambores, mau som e letras que oscilam entre o incompreensível e o indigente e penso que se os franceses soubessem que esta gente se reclama de sua descendência se matariam em massa.

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Às vezes penso nas mulheres que amei; outras, naquelas por quem fui amado.

Muito raramente penso nas que não me quiseram.

Fui feliz com a maioria das mulheres que amei ou me amaram. Mas ainda mais o fui com aquelas que não me quiseram.

"Não posso ser sócio de um clube que me aceita como sócio"; e agradeço àqueles que começam logo por não me aceitarem.

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Nas horas pares detesto o Reviver. Nas ímpares adoro-o.

Talvez não tenha que ver com o bairro.

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Este país respira sexo como eu bebo cachaça aromatizada: todas as alternativas são piores.