20.6.14

Diário de Bordos - São Luís, Maranhão, Brasil, 20-06-2014

Finalmente em S. Luís. Foi até ao último minuto: em Brasília quase falhava a ligação para aqui por causa de uma multa que tinha de pagar (estive noventa e três dias no Brasil em vez dos noventa a que tinha direito, da última vez que aqui estive). Quase quatro horas no escritório da polícia federal por causa de vinte e cinco reais. Havia um problema com o código de barras e não se conseguia fazer o pagamento nos ATM. Finalmente alguém se lembrou de o fazer via net. Estou grato a uma senhora chamada Carolina, de onde saiu a massa. E à funcionária de TAM que já tinha anulado a minha reserva e conseguiu repô-la. E ao senhor que ao fim de três horas me foi buscar comida, estava a morrer de fome.

Enfim, é sempre bom vermos países onde a burocracia é mais estúpida do que em Portugal - ajuda-nos a relativizar as coisas.

Tal como as ruas, por exemplo. Cheguei às três da manhã. Chovia que metia nojo. As ruas estavam inundadas - coisa que se compreende facilmente, em S. Luís só chove oito meses por ano, não estão habituados. Estava tudo inundado.

O percurso para o Tamancão, onde fica o estaleiro, é pior. Parece um troço de treino para o Paris - Dakar. Como não gosto muito de ar condicionado ando sempre com as janelas abertas, e volta e meia um cheiro horrível, uma mistura de esgoto e de carne putrefacta entra pelo carro dentro e faz-me pensar que tenho sorte. Não enjoo.

Enfim, cheguei à Pousada e fiquei  dormir no edifício principal porque não me apetecia molhar-me mais do que já estava. Hoje de manhã acordei, fui ao estaleiro e depois ao centro comercial, duas vezes. Correu tudo bem. Tenho um número local.

Fui bem recebido pelas pessoas que se lembravam de mim. É muito infantil, eu sei, mas é verdade que gosto. O senhor que me vende a castanha de caju lamentou a minha ausência, apesar de lhe comprar uma quantidade ridícula, para aquilo que ele vende. Fez-me uma grande festa, uma cara triste quando me falou de Portugal. respondi-lhe que já estamos a sair da crise, mas não era a isso que ele se referia. era ao futebol.

O único problema que Portugal tem neste momento são os quatro a zero que levou já não sei de quem. abençoado país. (E isto não vem só do senhor do caju, que é português, ou ex-português, ou quase, ou assim).

A Lenny da tasca (perdão, restaurante bar) Tia Amélia, no mercado também fez um grande sorriso quando me viu. Continua a usar soutiens dois números abaixo do que devia. Cada vez que me traz uma cerveja penso no que se passaria se as mamas fizessem aquilo que querem fazer e explodissem. Aposto que o mercado todo ficaria coberto de bocadinhos de mama. A Rosa (filha da Tia Amélia e patroa da Lenny) também me fez um bonito sorriso, deu-me as boas vindas, disse-me é bom vê-lo, mas olhe , não tenho molho picante, você ficou tanto tempo sem cá vir.

O mais efusivo de todos foi o Valmir, da pizzeria da pousada. Eu retribuo. Há dois anos tive de passar uma semana a comer aqui (é na pizzeria que escrevo este acrescento) e fiquei fan. Se não fosse o écran à escala um por um e o altifalante mesmo ao lado da minha mesa estaria feliz (lá fora festejam o S. João. A cacofonia continua igual).

Até o moto-táxi me reconheceu, e não era dos que apanhava mais vezes.

........
Hoje vi o barco. tirei um monte de fotografias com o tablet. O desafio é ainda maior do que eu pensava.

É bom estar de volta.

(Cont.)