27.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 27-06-2014

São quatro irmãos. Três têm Carlos no nome e três são chauffeurs de táxi. Não são os mesmo três. António Carlos é polícia. Sei isto tudo - e mais uma quantidade inimaginável de coisas, cada um mais desinteressante do que a precedente - por Wellington, que não só não tem Carlos no nome mas também fala sem parar, e é o único dos irmão que o faz. São os três evangelistas - ou serão os quatro? Não me lembro.

Carlos primeiro, como comecei a designá-lo hoje enquanto Wellington falava, é o mais calado deles. Foi por isso que lhe pedi o número de telefone. Um chauffeur de táxi que não fala, é competente e sério, tem um carro em bom estado e está pronto a negociar as tarifas (mas não demasiado; desconfio das pessoas que como eu fazem grandes descontos. Ou são tolos, ou não se valorizam ou são desonestos) é uma dádiva.

Infelizmente não devo ser o único a pensar assim e da vez seguinte quem veio foi Luis Carlos. É menos calado e o carro está em piores condições, mas ainda bastante aceitável. Hoje calhou-me Wellington (eu telefono para Carlos primeiro e ele distribui o trabalho pelos irmãos).

É um inferno. Chama-me  a atenção para qualquer coisa com um toque no braço ou na perna; e qualquer coisa é realmente qualquer coisa: desde a casa que pertencia a um senhor cujo barco se afundou - seguem-se pormenores mendespintianos sobre o número de pessoas e de búfalos que morreram - ao senhor que é polícia velado (polícia à paisana) e quanto é que ele cobra para não prender um traficante (entre trinta e cinquenta mil reais). Isto depois de me precisar que o homem é um matador - mata quem não tem dinheiro e cobra aos outros, deduzo.

Enfim, não deve ser assim tão linear, mas tão pouco deve estar muito longe.

Fiquei com o número de telefone de Wellington, mas vou continuar a telefonar ao primeiro Carlos. Um chauffeur de táxi que não fala prova que não devemos perder toda a esperança, nós que entramos em táxis.