8.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 07-08-2014

À minha frente a lua, não muito alta, dois ou três dias depois do quarto crescente;  atrás,  o trompete de Davis. As ruas do Centro vazias, e uma cidade que com cenas destas se vai apoderando de mim.

Regressava do Chicodiscos, designação improvável do melhor bar onde até hoje estive em S. Luís. Não é bem um bar. É mais um clube só para amigos do Chico e - felizmente - amigos dos amigos. Fui lá pela mão amiga e generosa do Celso e da Andréa, abençoados sejam.

É o primeiro andar de um prédio do Centro: a primeira coisa que impressiona é o pé direito, altíssimo. A segunda,  imediatamente a seguir,  é que acabamos de entrar no quarto que gostaríamos de ter tido há uns anos: fotografias de filmes, actores,  músicos. Todas a preto e branco,  todas de filmes,  actores ou músicos que não só conhecemos como apreciamos. La Strada; Kubrik; Woody Allen; Morrison. Candeeiros daqueles de corda, esféricos. Música alta mas não aos berros, pode falar-se. E boa. Uma vasta escolha de cachaças. Pouca gente e toda conhecida - o bar é para amigos não é uma fórmula -.

Eu sabia que havia sítios assim em S. Luís.  Não há cidade no mundo que os não tenha. É preciso é encontrá-los.

Aqui há uns tempos contabilizei todas as cidades onde já vivi - viver sendo passar mais de três meses. Estão quase todas na Europa, em África, nas Américas Central e do Sul (e Nakhodka, claro, no Extremo-Oriente Russo, mas essa não conta inteiramente, apesar de lá ter passado quatro meses, porque vivia a bordo).

Vivi em muitos sítios em circunstâncias bastante diferentes, mas os mecanismos de apropriação são sempre os mesmos: não somos nós que nos apoderamos de uma cidade, é ela que se apodera de nós.

Sábado vou a uma leitura de poesia, organizada pelo Celso e pelo Bruno. Todos os sábados há uma, num local público e diferente. A próxima vai ser no local onde vivia António Vieira quando viveu em S. Luís. As cidades entram por nós assim: ínvias, sorrateiras.

E nós rendemo-nos a elas porque as cidades não existem. O que existe são as amizades que nelas fazemos. E os bares que os amigos nos fazem descobrir. E os amigos que os bares nos permitem conhecer.