11.8.14

Maude - II

Já alguma se apaixonaram por alguém que à partida não tem nada em comum convosco? Nada em comum com vocês ou aquilo que procuram no outro? Foi isso que me aconteceu com ele.

Eu sempre gostei de artistas, de uma vida desorganizada, sem outras expectativas que não fossem criar, gozar, aprender, conhecer "pessoas interessantes" (as aspas são consequência destes dezasseis anos com ele, claro. O seu cepticismo contaminou-me. Pessoas interessantes só existem nas cabeças de pessoas que as têm vazias). Queria um homem ao meu lado sempre; pensava que as minhas ideias se transformariam milagrosamente em livros, contos, letras de canções, pinturas, fotografias.

Conheci-o num jantar. Era um jovem piloto com um sentido de humor demolidor, que defendia sozinho as suas ideias contra todos os presentes, educadamente, com um sorriso e uma resposta lapidar àquilo que visivelmente lhe parecia uma antologia de tonterias.

Não me lembro qual o tema de discussão desse primeiro jantar. A cena repetiu-se várias vezes, até ele se cansar e não falar se não do tempo e de aviões - duas coisas que, dizia, o apaixonavam. "Principalmente o tempo, a sua constante mudança, a sua imprevisibilidade" -.

Foi contra vontade que me apaixonei por ele. Era um homem decente, provavelmente o mais decente que jamais conheci. "Decente? Pior do que isso só ser cornudo", disse-me um dia. "Pensava que não te importavas com isso de ser cornudo". "Verdade. Nesse caso não há nada pior do que ser decente".

Mas sim, era um homem decente. Oferecia-me flores, trazia-me constantemente prendas - joalharia, roupa - das suas viagens, amava-me maravilhosamente e, sobretudo, nunca me fazia perguntas. Um dia fiz-lho notar, e respondeu "O que quiseres que eu saiba dizes; o que não queres, inventas".

Demorei muito tempo a habituar-me a essa liberdade. Nos primeiros anos da nossa vida comum - vivemos três anos juntos, antes de nos casarmos - só pensava em deixá-lo. E casei-me cheia de dúvidas. Nunca o tinha enganado - se bem enganar não seja o termo adequado -.

Um dia falámos no tema. Oh, muito por alto e indirectamente, de raspão, como se não fosse nada com ele, ou comigo. Nessa altura estávamos casados havia dois anos, se tanto. Mas tínhamos passado por muitas coisas juntos: uma separação curta e dolorosa para os dois, uma gravidez falhada para mim - que de resto me fez saber que nunca poderia vir a ter filhos e podia deixar a pílula - a morte da minha mãe, um acidente em que ele esteve envolvido e no qual poderia ter morrido.

É demasiado, para cinco anos de vida comum. Não precisava de um marido a dizer-me que podia fazer o que quisesse, desde que ele não soubesse. Um marido que naquele dia eu amava um pouco mais do que alguns anos antes; um marido ao qual pouco a pouco, devagar, me tinha habituado; que eu nunca tinha enganado. Porque viria ele agora com essa conversa, a propósito de um filme, ou de um livro, ou de uma coscuvilhice, não me lembro?

Mas aquilo não foi bem uma conversa. Foi mais uma informação, como se estivéssemos numa estação de comboios, ou de metro e um altifalante dissesse que o próximo comboio ia chegar atrasado, ou havia perturbações na linha.

Não me lembro do que lhe respondi.

A primeira vez que tive um caso foi uns largos meses depois. O meu marido - já conseguia usar esta expressão sem sentir um arrepio - estava fora, num voo para o Brasil. Encontrei António numa festa. Escrevia, tinha muita graça, não tinha um chavo, e era péssimo na cama.

Repararam que disse "tive um caso". Com António descobri duas coisas: a) não estava a enganar o homem que b) amava. Informações só superficialmente contraditórias. E com as quais vivo desde então.

Aprendera, finalmente, aquilo que o meu marido me dizia havia anos: não se deve misturar o amor com mais nada. Nem com o sexo, o casamento, a amizade, a vida quotidiana, o desejo, o que for. Amor é amor, e o resto é conversa, formalidades, prazer ou cumplicidade. Como a água, que se pode misturar com tudo mas só é boa quando é pura.

António é brusco na cama, vem-se depressa, parece que está a fazer amor sozinho. Pouco me importa: não é por falta de bom sexo que estou com ele.

É por não me faltar nada que estou com ele.