10.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 10-08-2014

S. Luís ocupa-me, ocupa e é ocupada. Ontem, como todos os sábados foi dia de Cidade Ocupada: leituras públicas de poesia em locais relevantes da cidade. Relevantes de um ponto de vista da história, ou da literatura, ou do que seja. A minha primeira participação foi na praça onde viveu o Padre António Vieira. A melhor sessão inaugural possível.

Confesso que fiquei surpreendido tanto pela quantidade como pela qualidade das participações. A começar na jovem Clarisse, a filha de Celso, nove anos de idade e a acabar em qualquer dos outros, tive direito a quase duas horas de prazer puro.

Eu disse dois ou três poemas (humm... quatro!): um do Reinaldo Ferreira, dois de Fernando Pessoa e um haiku de Issa (e não Bashô, como erradamente indiquei). Dois "cordelistas" - um tipo de poesia narrativa, popular, rimada, com temas como a promessa não cumprida de um emprego, a compra de um computador ou conselhos para os políticos ganharem eleições (são em Outubro) - debitaram de memória uma quantidade prodigiosa de versos.

Lúcia Santos disse poemas deliciosos, sensuais e curtos, como "Por falar em futebol / venha jogar / sob meu lençol" ou "Tua língua em meu ouvido / Babel / onde tudo faz sentido"; ou menos sensuais, mas divertidos na mesma: "Cabeça de um homem / numa bandeja / toda mulher deseja". O Celso leu poemas dele e um excerto de um sermão de Vieira.

Para a próxima preparo-me melhor. Não é sequer uma promessa. É um privilégio.

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Ontem fui fazer compras ao mercado primeiro; e depois ao supermercado. Algumas pessoas poderiam pensar que fui excessivo nas compras. Mas como não sei o que excessivo quer dizer não ligo muito.

O prazer de beber leite, por exemplo - é excessivo? E beber um bom café (enfim, sejamos honestos: menos mau)? Allah uAqbar. Excessivas são as mentes que sabem o que excesso é.