23.8.14

Maude - III

Um gajo pode ser bom naturalmente, por obra e graça da natureza, por ser anjinho; ou porque já foi mau: fez demasiadas asneiras, demasiados erros, maldades e aprendeu com eles.

Estou longe de ser o gajo decente que todos pensam que sou. No qual me transformei depois de ter feito muita merda. Não posso dizer que tenha sido difícil. Não foi. Comecei simplesmente a empatizar com os outros, a perceber que as minhas acções tinham consequências, a sofrer demasiadas vezes as maldades de que era vítima. Pouco a pouco - o processo foi gradual, lento, por vezes imperceptível - transformei-me num "homem bom"  (aspas porque repito o que milhares de vezes me disseram. Tu és um homem bom. You are a good man. Eres un hombre bueno. Tu es un chic tipe. Disseram-mo em todo o lado, em todas as línguas).

Ando há cinco anos com Isabel. Ao princípio era suposto ser uma dessas relações "picada de mosca", insensível, rápida, sem consequências, um banal affaire entre um piloto e uma hospedeiraqueca em Nova Iorque, passeio no Rio, compras em S. Francisco. Mas um dia pedi para voar de chave com ela (significa fazer sistematicamente voos em conjunto com outro tripulante) e desde aí perdi o controle. Passo mais tempo com Isabel do que com Maude. Penso nela mais vezes, toco-lhe e falo-lhe e rio-me com ela mais do que o faço com Maude. Se alguém me convida para um jantar e diz "Traga a sua mulher" é em Isabel que penso, não em Maude.

Maude... Quando penso no que este nome me fez sonhar e no pesadelo que hoje se tornou. Odeio tudo o que ele evoca para mim, a começar na minha cobardia, a continuar pela minha duplicidade, a acabar nas memórias que dela tenho, dos tempos em que a amava.

Como cheguei aqui? Como posso não amar a pessoa que tanto amei? Como posso mentir-lhe?

Não é como. É porque. Como eu sei. Porque não.



[Com um obrigado ao Hugo Mastbaum pela ajuda]