14.9.14

Barragem

Il faut un barrage contre les mots, une digue, pedias antigamente, lembras-te? Il faut les retenir, les faire attendre jusqu'à ce que  plus rien ne puisse les retenir.

As palavras amam a distância e respeitar-te-ão muito mais se tu nela as mantiveres. Dá-lhes esse prazer: deixa-as longe de ti até que elas por ti irrompam como serpentes, Medusa feliz, Shiva abúlico e desiludido.

Não te arrependas de ter sido maldoso: arrepende-te apenas das palavras erradas que disseste, das palavras que não soubeste manter à distância, daquelas a quem abriste os digues antes da hora. Não te arrependas de ter amado: arrepende-te de não teres encontrado as palavras de cada um dos amores. Não te arrependas de ter vivido, ou morrido: arrepende-te do tempo que passaste entre um e outro, do tempo que passaste entre as palavras, como se andasses à chuva e não te molhasses.

Podes fazer a barragem com vinho, se quiseres; desde que seja bom. Ou com mar. Podes até fazê-la com outro corpo. Esconde-te nele, e nele as palavras, a vida, a morte. Tudo. Porque fora das palavras nada existe, nem o silêncio.

(Para a Dina, que não sei onde anda, mas que espero tenha encontrado a sua barragem).