1.9.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 01-09-2014

Hoje fui ao médico tirar os pontos. Espero não ter de voltar tão cedo Superclínica, o meu fornecedor de cuidados de saúde em S. Luís - e em qualquer parte do mundo onde estejam. Vi dois especialistas e qualquer deles foi eficaz, rápido, caloroso -. Mas por agora chega.

A Superclínica é barata ("popular"), já por aqui o disse; e a minha aposta na qualidade dos médicos - para quem se lembra, que não deve ser muito diferente de uma clínica cara para esta - parece ganha. Ainda bem: se tivesse de ir a uma das clínicas menos populares a cavalariça teria sofrido um bocadinho mais, ou mais tempo.

A qual cavalariça no fundo tem feito o seu dever: retribuir as atenções todas que recebeu. Os índices da coisa têm estado dentro dos parâmetros normais (ou seja, nem pré-diabético sou, que chatice. Que será o meu futuro?) perco peso mas devagar, muito devagar, e lá vou bebendo um copinho de vinho de vez em quando.

Basta pôr o cavalo na ordem para que tudo entre na linha.

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A Cidade Ocupada enriqueceu-se com uma exposição de fotografia. Quem quer traz as suas obras e expõe-as num varal.

É bonito e uma vez mais surpreendente, antinómico. Enfim, uma antinomia mais, numa cidade rica delas. Entre a beleza da cidade e o seu estado de degradação, entre a qualidade dos seus artistas e a dos políticos que a governam ou para isso concorrem, entre a beleza do que se vê e o cheiro, entre a simpatia das pessoas e a maneira como a cidade se esconde - nisso parece-se com Lisboa, uma espécie de matrioska urbana, uma cidade dentro de outra que esconde outra que acolhe outra e assim por diante -.

Na verdade parece-se com Lisboa em muitas coisas - tanto nas boas como nas más.

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Por falar em qualidade dos artistas: ontem fui ao Espigão (um quebra-mar atrás do qua pretendem fazer uma marina e que eu penso continuará um quebra-mar sem marina por muitos anos, porque esta baía se não for dragada - e já agora se não fizerem qualquer coisa naquilo que está a provocar o seu assoreamento, o dique do Bakanga - qualquer dia nem na maré cheia se nela navega).

Sessão de música ao vivo. Vai haver em breve um festival de música algures o Brasil e seis bandas do Maranhão foram seleccionadas "entre mais de mil", diz com justificado orgulho o jovem e talentoso trompetista, para ir lá tocar. Acontece que o Estado não deu ou ainda não deu "apoios" (entre aspas porque começo a ficar com arrepios cada vez que oiço esta expressão, e aqui oiço-a como se fosse um relógio a marcar segundos) pelo que resolveram - aqui interrompo: "trabalhar", diz uma voz feminina da assistência quando o jovem trompetista diz  - "se virar".

Não ouvi todas as bandas - depois chegaram pessoas que conheço da Cidade Ocupada e fiquei na conversa - mas o que ouvi explica com facilidade porque foram seleccionadas aquelas.

Música soberba - rock, para variar um pouco - escorreito, bem feito e bem tocado, num ambiente lindo e cheio de vento.

Alísios (não sei de onde vem a grafia com i, penso sempre em alíseos. Porque será?). Portugal tem os alísios portugueses (a nortada) mas eu gosto mais destes, os verdadeiros, que vêm de longe e tanto fizeram pelo mundo (os nossos também, verdade seja dita. Mas estes são ... sei lá, são os verdadeiros, os alísios sem qualificativos, sem mais nada alísios. Até a palavra é bonita).

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Conheci uma jovem arquitecta portuguesa - não sei porque insisto tanto no jovem, neste país toda a gente o é, até os velhos, até eu -  que está cá há dois anos. Está a ficar preocupada com a quantidade de prédios que se estão a construir e os poucos que se estão a vender.

A próxima crise aqui é facilmente previsível, não há que ficar preocupado. Ela vai chegar em breve. O Brasil não fez nenhuma das reformas de que desesperadamente necessita para deixar de ser o país do futuro, de modo os ciclos de boom and bust que sempre caracterizaram a sua economia vão continuar. E não será Dilma - a mais do que provável vencedora das próximas eleições - que vai mudar. Ou pelo menos mudar para melhor.