5.9.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 04-09-2014

Penso "Gosto de todos os sítios onde estive e não gosto de nenhum onde estou" e imediatamente procuro as excepções. Lisboa, le Marin, Marseille, Londres, Paris, Palma, Dunkerque, Lubumbashi, Bujumbura, Mértola, Brighton, Antigua, Aber Wrac'h (e toda a Bretanha), S. Francisco, Miami. São tantas.

São mais as excepções do que as regras. Lugares de que só gostei a posteriori: Genève, Panamá, Salvador... Ia acrescentar "S. Luís será decerto assim" mas apercebo-me de que já não é verdade. Começo a conhecer esta cidade, a amar-lhe os defeitos.  Irrevogável sinal de amor.

K. diz-me que os filmes começam às sete e ela virá por volta das oito. Chega às oito e meia; dos filmes só umas sombras: devem estar com problemas na projecção. E não me importo nada com o duplo atraso, com a inexistência de vinho ou caipirinha no bar da Saudade de qualquer coisa que não percebi, com o facto simples e inegável de que não gosto de samba.

Está vento e uma noite linda, sei que se for para casa tenho um bom frango à espera, as coisas fluem - eu próprio cheguei mais tarde do que pensava porque o gás acabou e frango e canja atrasaram três quartos de hora - e reencontram o seu caminho como água na montanha.

As mulheres são bonitas, os alísios levantam-lhes os cabelos, a Fonte do Ribeirão é mágica - um buraco de beleza azul desligado de tudo o que o rodeia (como eu, de resto), inundado de música e rodeado de prédios recuperados,  prédios a cair, mesas de plástico, pessoas bonitas sentadas em todo o lado e K. que chega radiante e radiosa e me deixa imediatamente para ir "cumprimentar a galera". É a liberdade do ribeiro na encosta: vai pela gravidade mas por onde quer, a liberdade simples das coisas que o são e fluem como são.

Não há traço da população da Paia Grande. Na hora que ali passo ninguém me vem pedir dinheiro, nenhum crackómano inicia uma cena de pancada com outro, ninguém tenta roubar-me a bebida, a rua não cheira mal. Estou a cinco minutos de bicicleta e já  acidde é outra.

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Não fiquei: a música estava demasiado alta, K. levou-me para um lugar onde não havia vento, era difícil conversar. Voltei para a pousada e para o frango que cozinhei à tarde.

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Comecei por marinar o bicho em limão, alho, louro, paprika e alecrim. Uma hora no frigorífico.

Depois refoguei uma bela quantidade de toucinho, Retirei e para essa gordura foram cebola e pimentos. Numa frigideira fritei o frango - não tanto quanto queria, o tempo apertava apesar de saber que K. chegaria atrasada -. Depois juntei tudo na panela (tudo incluindo a marinada) uma boa giclée de tinto, acertei as especiarias e ala que se faz tarde.

Não fui eu quem acabou a cozedura. Só provei o resultado e ouvi os comentários dos convivas. Cada vez gosto mais de cozinhar.

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B. avança. A cada dia nota-se a diferença. Temos quatro pessoas a trabalhar nele a tempo inteiro e muito provavelmente em breve uma quinta. Vou sair de S. Luis em finais de Novembro e já estou com saudades.