12.10.14

Carta aberta ao Meritíssimo Juiz

Meritíssimo Senhor Doutor Juiz,

Preciso de começar pelo essencial: não lhe escrevo esta carta para lhe pedir leniência. Quero ser julgado com rigor e objectividade. Porém não poderá julgar-me se não tiver todos os elementos em mão.

Nunca os terá completos, eu sei. Somos um puzzle (uns com mais outros com menos peças) do qual nunca se conhecerá o fim; que nunca - nem na morte - se verá feito e inteiro. Mas quanto menos peças faltarem mais fácil será a sua tarefa e justa a decisão.

O Meritíssimo Juiz não me perceberá talvez se eu lhe disser que mais do que conhecer cada rua desta cidade são elas, as ruas que me conhecem. Algumas mais do que outras, claro. Mas elas conhecem-me. Pelo nome - chamo-me António, como sabe - e pelo feitio, que não é fácil, reconheço.

Algumas ruas desta cidade conhecem-me como se me tivessem feito. E não é pelo andar: não ando sempre da mesma maneira. Por vezes tenho o andar um bocadinho bamboleante do marinheiro; outras, o andar muito bamboleante do homem bêbedo; outras ainda ando sóbrio, mas apressado, como os homens que têm um objectivo na vida e não o querem fazer esperar.

A minha maneira de andar varia muito, Meritíssimo Juiz. Não é por isso que as ruas me conhecem.

É porque já as calcorreei milhares de vezes, quase sempre sozinho e às vezes - raramente-  acompanhado. Algumas, claro, Nem todas.

Por exemplo a rua onde esta desgraça aconteceu é das que mais vezes percorri - a correr para apanhar o último comboio, a subir depressa para fazer exercício, a andar devagar para ver cada uma das casas, a andar depressa porque é tarde e tenho de ir para casa -.

Desgraça é o termo adequado.

Imagine, Meritíssimo Juiz, que mal pus um pé na Rua do Alecrim ouvi uma pedra da calçada dizer para outra "Olha, vem aí o palerma do António". "Quem?" "Pá, o António das fisgas".

Ouvi este diálogo, Meritíssimo - juro-lhe - logo no princípio da rua. E fui-o ouvindo o caminho todo.

- Está sóbrio?
- Parece que sim.
- É aquele palerma que passa por aqui todos os dias?
- É. O gajo que a mulher deixou faz em Outubro um ano.
- Só me pergunto como é que ela o aguentou tanto tempo. A senhora tinha um aspecto impecável, lembras-te?
- Pouco. Nunca o gramei muito.
- Claro. Era um imbecil. Ainda é, ao que vejo.

Chamo-me António, como tão bem sabe, Meritíssimo Juiz.

Acredite: não ligo nenhuima aos insultos frequentes, variados, absurdos que me fazem. Estou-me nas tintas. As fisgas não dão muito dinheiro e esse gasto-o em livros, discos e vinho. O que os outros pensam interessa-me pouco - excepto, claro, se daí puder aprender alguma coisa -; o que pensam de mim é-me total, quase dolorosamente indiferente. Aliás nem me apercebi logo de que era de mim que estavam a falar. Acontece frequentemente eu não ouvir o que dizem à minha volta. A Ana, minha ex-mulher, chamava-me arrogante, desinteressado, ausente - dependia um bocadinho do seu humor.

Mas pedras da calçada, Meritíssimo? Pedras da calçada a falarem de mim e a dizerem coisas com as quais no fundo concordo? Pedras da calçada que me conhecem desde que vim viver para Lisboa, vai para quarenta anos?

Há quarenta anos que faço fisgas, Senhor Doutor Juiz. E ainda não apanhei um pássaro que se veja.  Ou se é zarolho ou se é palerma, não acha? Como não sou zarolho... Q.E.D.

Enfim, regressemos à história: ouvi o primeiro comentário e não liguei. Foi logo mal pus o pé na rua do Alecrim. Vinha do Cais do Sodré e ia para o Rato. Esse e o trajecto entre o Cais do Sodré e o Rossio são os que mais fiz na vida. É por isso que as pedras da calçada me conhecem tão bem.

- Olha o palerma do gajo das fisgas.
- Bolas, já não lhe posso ver as solas.
- Pelo menos hoje não são as que têm buracos.
- Lembras-te daquela vez em que ele descobriu que tinha um buraco na sola porque começou a chover e molhou as meias?
- Se lembro. Ficou especado aqui mesmo ao meu lado, apoiado naquele portão...

Diálogos como este em plena rua do Alecrim, Senhor Doutor Juiz. Falavam das solas do sapatos - lembro-me perfeitamente desse dia: a sola tinha um buraco enorme, e eu não sabia, não tinha dado por ele. Começou a chover e claro, fiquei com a meia toda molhada e em pânico. Ia para uma reunião importante - um clube de caçadores com fisgas queria fazer uma encomenda grande - e eu ali especado, com um buraco na sola, a meia molhada... Enfim, lá acabei por acalmar. No caminho comprei um par de meias e mesmo antes de entrar para a reunião tirei umas e pus as outras e ninguém deu por nada -. Falavam de um dia em que vomitei na rua. E não foi por ter bebido, mas isso claro que nem vale a pena dizer, ninguém acredita. E verdade seja dita: quantas vezes não vomitei eu na rua por estar bêbedo?

Não sou nem estou maluco, Senhor Doutor Meritíssimo. Ouvia perfeitamente os comentários que as pedras faziam. Era o único, pelo que me apercebi. E se ouvissem? Ser-me-ia indiferente. Quem, naquela rua, sabe que sou o António das fisgas?

Mas não é fácil. Eu sei que não tenho um feitio muito bom. Aliás é por isso que as mulheres me deixam todas, umas a seguir às outras. Sou chato, teimoso, casmurro, às vezes mau com elas. Mas nunca, nunca, toquei numa mulher para lhe bater, Senhor Doutor. Sou contra a violência.

Por isso não percebo como consegui fazer o que fiz. É verdade que a vida não me tem corrido bem, ultimamente: desde que a Ana se foi embora tudo tem vindo por aí abaixo, tudo. Uma derrocada. Mas daí a matar um homem vai um passo que eu nunca pensei seria capaz de dar.

Vinha de baixo, da Praça Duque da Tereceira, como lhe disse. Ainda não ia a meio da rua do Alecrim já me parecia que a cabeça ia explodir. Reparei que as pessoas olhavam para mim desconfiadas: estava a tentar silenciar as pedras da calçada pisando-as com o talão dos sapatos. Como lhe disse sou relativamente indiferente ao que os outros pensam de mim. Mas a verdade é que aqueles olhares foram mais uma acha na fogueira.

Que fique claro, Senhor Doutor Juiz: tal com não sou nem estou maluco não sou estrangeiro ou revoltado. S!ou um cidadão calmo, pacato, que vive um pouco à margem da sociedade, mas não à margem da lei. Acredito na lei e nos efeitos benévolos da civilização.

Não acredito em Rousseau nem em bons selvagens. Os meus pais educaram-me correctamente. Estou longe de ser o melhor fabricante de fisgas do mundo mas estou igualmente longe de ser o pior.

Não sei o que me passou pela cabeça quando o preto me olhou de lado e esboçou um sorriso. Não sou racista, repare. Digo o preto como podia dizer o homem, ou o gordo, ou baixinho ou seja o que for. Enfim: não sei o que me passou pela cabeça quando o homem me olhou de lado e esboçou um sorriso.

Foi por isto, Senhor Doutor Juiz, que dei cabo dele. Não queria matá-lo, juro. Não queria sequer bater-lhe! Mas algo saltou nesta cabeça e enchi-o de murros e pontapés e acabei a dar-lhe com a cabeça nas pedras da calçada, a ver se as calava a elas, ou a ele. Não sei.

Não era eu que estava a bater no homem, Senhor Doutor Juiz. Eram quarenta anos de fisgas que não levam a lado nenhum, eram dez mulheres que me deixaram sem qualquer explicação - a última foi a Ana, Senhor Doutor, uma rapariga doce, tímida, bem educada que um dia pega nas suas coisas e me diz: Vou-me embora e foi, sem um adeus, um beijo, uma explicação. Vou-me embora.

As desgraças são para levar até ao fim: metade de uma desgraça é uma graça. "Um homem", dizem no Brasil, "ou se trata ou se mata". Mas nada disto me fez matar o senhor, coitado. Nada.

Não fui eu, Senhor Doutor Juiz quem matou o preto. Foram as minhas mãos e os meus pés, mas não a minha cabeça nem a minha vontade. Nem o sol. Foram as pedras da calçada, Senhor Doutor Juiz.