9.10.14

Lembrar devagar, memória de elefante

Um elefante bêbedo ouve Coltrane. The Paris Concert.

Mentira.

Pensava numa senhora alta, loira, olhos azuis, extremamente frágil e dependente.

Mentira.

Bebia vinho tinto. Quinta do Perdigão 2009. Fraco ataque, bom fim de boca, ligeiramente adstringente. O elefante lembra-se do melhor rosé que jamais bebeu, da mesma quinta. Pensa em Mr. PC. The Paris Concert.

Não se lembra. E ainda há quem fale em memória de elefante, pensa.

Não sabem do que falam. Ninguém sabe. Mistérios.

Colados como bolhas de ar na farinha dos bolos. Ou no pão. Num soufflé. Quanto mais alto maior a queda.

Lê devagar. Fode devagar. Come devagar.  Vive devagar, porra!

Olha devagar. Não penses. Ouve devagar. Apalpa devagar. Morre devagar.

Ri devagar,  como a senhora da mesa ao lado que tem o sorriso congelado. Ri-se e a cara dela parece uma grande porta de frigorífico entreaberta.

Coltrane devagar. Pensa: quero que te fodas. Mas não devagar. Depressa. Consome-te depressa nesse abismo que passeias e no qual te passeias como o avesso do sobretudo coçado com que tentas cobrir-te. Sem sucesso.

Deseja. Devagar. Já pensaste no desejo? Não.

Mentira.

Oscilas como um bambu num temporal. Não és tu. É o elefante. O bêbedo é ele. Não tu.

Um elefante bêbedo não pensa. Tão pouco sorri, aliás. Mete a tromba pelas mãos, estas pelos pés e acaba enrodilhado no arame ao lado da bicicleta alada e branca.

De nada falo senão do que vejo.

A rapariga parece uma estrela, uma flecha veloz, um corpo magro em dois bambus. Vertiginosa. O bambu é a minha árvore favorita.

Agora esqueço.

Mentira.

Memória de elefante.