10.10.14

Resumo - IV

Faz hoje quatro anos saí de Lisboa para o Brasil buscar uma embarcação de vela. A embarcação - um catamaran de quarenta e três pés construído em madeira - não estava pronta; afundou-se no dia em que foi posto na água; quase perdi a vida para a salvar.

Deixei-o na cidade para onde tinha voado e lá ficou dois anos, durante os quais fui por terra para a Guiana Francesa - uma viagem inesquecível que me relembrou que o mar não é a única forma de se viajar, naveguei nas Caraíbas e fui feliz como há muito tempo não o era.

Regressei a essa cidade - Parnaíba, no estado do Piauí, uma espécie de buraco no qual a cada esquina se espera ver um coronel do antigamente de pistola à cintura, bigodes e chapéu, cavalo e amante - dois anos depois para ir buscar o barco e levá-lo para S. Luís. Mais uma viagem que vai para a estante das viagens irrepetíveis. Quatro dias a reboque de uma embarcação de pesca, primeiro pelo mar depois por uma baía que é dos sítios mais lindos que vi em toda a minha vida.

Téu-téu - "um homem honesto como não há dois", dizia-me Pelé, a quem eu contratara o reboque. "O senhor deixa dez mil reais em cima da mesa e ele não lhes toca. O negócio dele é furar pessoa" e fazia o gesto de me espetar uma faca na barriga; Chaguinha, tão pequeno como o outro era grande, que governava dez horas por dia com a facilidade e o sorriso com que eu bebo um copo de vinho; Pelé, ex-contrabandista que "só conhecia os portos onde não há autoridades. Os que têm não conheço, nunca lá entrei de barco"; o piloto que metemos para nos ajudar a chegar a S. Luís e que descobrimos que não ia lá havia "mais de quarenta anos". Foi uma viagem maravilhosa, apesar da chuva dentro do barco, das sessões de bomba, da comida pouco apetecível que eles faziam em quantidades gargantuescas e devoram da mesma forma.

A esta viagem seguiu-se outro interregno de dois anos durante os quais atravessei o Atlântico duas vezes, vivi em Palma de Maiorca, de onde levei um barco a motor para a Holanda, fiz uma viagem sublime de S. Francisco, na Califórnia, para o Panamá, onde vivi durante um ano. E fui infeliz, muito. Apesar da viagem pela costa Oeste do continente americano, que me deu a ver mais vida marinha do que outra qualquer, apesar da tripulação magnífica, apesar das duas semanas em Napa Valley, numa marina que cheirava a estrume de vaca e parecia uma peça de Lego que alguém esquecera fora do armário, apesar de tudo, e tudo podia ter sido tão bom. Não foi. Foi. Não foi. Foi.

Este ano voltei de novo ao Brasil, de novo a S. Luís, cidade que detesto particularmente. A construção do barco avançou, mas mais devagar do que eu esperava. A principal característica de quem quer que seja que trabalhe com embarcações - todas, sejam elas à vela, a motor, de recreio ou não - é estar preparado para surpresas. Há quem chame flexibilidade a esta qualidade. Ou adaptabilidade. Ou pragmatismo. Um marinheiro sabe desde que nasceu - desde que os barcos existem - que se quer ir para Norte e o vento está norte pouco há a fazer senão adaptar-se. Vociferar contra o vento, as correntes (ou as mulheres) de pouco serve, ou nada.

Agora estou em Lisboa. Preparo-me tranquila, lentamente, para mudar de vida. É uma perspectiva que me assusta, que não me acolhe de braços abertos. Hesito. A dois anos de felicidade seguiram-se dois de tristeza profunda; quero ter a certeza de que não me engano de novo.

Não sei. Penso nos amigos que fiz em S. Luis, com quem em breve jantarei de novo e declamarei poesia nas ruas da cidade. Penso no mar das Caraíbas, que não serei capaz de deixar, a quem sou indiferente (todos somos indiferentes a todos os mares. Têm mais com que se ocupar, os oceanos, do que com as pessoas inquietas e desassossegadas que insistem em atravessá-los como se do outro lado fossem encontrar coisas e pessoas diferentes das que deixaram, ou eram quando partiram).

Continuo a não ser capaz de me preocupar muito com o futuro: o passado e o presente chegam para me encher os dias e as noites.

Preciso violentamente de mar. Preciso violentamente de mim.