7.11.14

Diário de Bordos - Comboio Porto Lisboa, 07-11-2014

Só recebo piropos quando sou fotografado pela Graça Ezequiel.  E mesmo assim associam-me a um cantor local ou a uma das suas cançonetas com pretensões.

Forçoso é reconhecer que não me importaria de receber um ou dois piropos mais - por mês,  já não digo por semana -.

Mas é igualmente forçoso reconhecer que se ouvisse vinte piropos por dia,  e desprovidos da graça (e da Graça, claro) talvez gostasse menos de os ouvir e esperasse pelo próximo com menos ansiedade. Ou seja: de certa e invejosa forma compreendo as senhoras e os maricas que querem limitar a quantidade - ou aumentar a qualidade - dos piropos que ouvem quotidianamente.

O problema que vejo nisto é mais de ordem prática. Como legislar? É proibido dizer piropos se não forem acompanhados por fotografias da Graça Ezequiel e por referências à música popular indígena?

É proibido dizer piropos se forem notoriamente falsos, mesmo se apoiados em fotografias da dita - e simpática - senhora (não a conheço pessoalmente, mas quem faz fotografias daquelas de mim não pode ser má pessoa)?

É proibido dizer piropos se não puderem - ainda que falaciosamente - ser associados a cantores e canções mediocres?

Como proibir uma pessoa de manifestar o seu mau gosto ou, mais frequentemente, a sua falta de educação, tacto, sensibilidade, jeito ou - pior - esperança?

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Na mesa ao lado da minha está sentada uma senhora que sem ser bonita é linda, aquele linda que nos levaria ao altar sem passar pelo hotel (isto é para ser dito em francês,  claro). Falam - ela e o casal que a acompanha -  de viagens. Profusão de viagens.  As dela (fala no plural. Aposto que tem um namorado), as dos amigos, as do casal e respectivos amigos e assim por diante. Quando me fui embora ficaram provavelmente a discutir as viagens do papa ou as de algum condutor de comboios que calhem conhecer.

Estou a reler Fernão Mendes Pinto e não posso deixar de pensar na atracção que os portugueses têm pelas viagens.

Eu não aspiro a nada mais do que uma quinta em Almada - em Mértola, se possível - e pergunto-me se viajar de turismo é viajar.

Acho que não. Só se viaja verdadeiramente quando se é cativo, vendido,  escravo, amaldiçoado.

Ou bendito, mas isso é outra história.

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Entre apanhar um comboio mais cedo para Lisboa e comprovar uma vez mais a existência de Deus optei por esta última (vou fundar um ramo da teologia chamado teologia gourmet). Não existe, nem mesmo quando cozinha no restaurante Aleixo: o peixe galo estava perfeito e a açorda de ovas também. Mas não estavam divinos.

A única coisa divina foi a já mencionada senhora, com ou pela qual eu iniciaria muito rapidamente uma carreira estática e sedentária em teologia estética, idolatria sensual ou até conversaria sobre viagens.

Se ela quisesse, claro. Não sou de piropos.