21.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 20-11-2014

Agora tenho uma bicicleta. Galveston muda. (Bicicleta é dizer pouco: uma Dean de corrida que pesa metade da minha Turbo e custa cinco vezes mais).

Ou seja: estou livre da tirania do McDonald's - contra o qual, de resto,  nada tenho. Antes muito pelo contrário -.

De maneira hoje vim jantar ao Fuddruckers, coisa de que nunca tinha ouvido falar. Hambúrgueres excelentes e um conceito apreciável. Um gajo encomenda - a escolha é vasta e inclui uma opção sem pão - e vai para a mesa com uma aparelho que o avisa quando o prato está pronto. Até aqui nada de novo,  nem a Oeste nem a Leste.

Onde a novidade começa,  pelo menos para mim,  é quando se vai buscar a coisa. A senhora aponta para um enorme buffet e diz Os acompanhamentos estão ali.

Se estão. Salada, tomate, pickles, cebola, pimentos - you name it, perdoem-me o inglês mas aqui é mais do que justificado -.

Por oito dólares come-se bem - a carne esta excelente - respeita-se a auto-imposta restrição aos hidratos de carbono e ainda se ouve boa música.

Seria incapaz de viver nos Estados Unidos - incluindo San Francisco, cidade de que gosto especialmente - mas forçoso é reconhecer que merecem o que têm.

Só é pena esta obsessão com a regulação. É um país governado por juízes. Em Portugal já tivemos um cheirinho do que isso significa.

Aqui é muito pior. A terra dos livres há muito que deixou de o ser. Agora é a terra dos juízes.

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O trabalho avança depressa. Que prazer! Trabalho ao meu ritmo a fazer uma coisa de que gosto.

Sou pago decentemente para isso e para estar numa cidade que aprecio, mesmo não conhecendo ninguém.

A estadia vai ser curta, pero ¿qué importa? Aproveita o que tens quando tens... Amanhã és terra, como diz Omar Khayyam,  tão bem. E só servirás para fazer jarras de vinho.

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O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas trouxe-me à memoria os meus tempos de leituras zen. E reconciliou-me com ele.

Depressa me aborreci: não lhe aceito a passividade, a ideia de que tudo é uma ilusão,  a ideia que é possível evitar a dor e o sofrimento.

Não é. Nem sequer é desejável: sem dor não há prazer, como sem tristeza não há alegria.

Mas lembrei-me de como o Zen me ajudou a perceber Camus e a apreciá-lo ainda mais: absurdo por absurdo prefiro o que o lamenta ao que se toma por objectivo.