3.11.14

Não amor

Eu sei que não te amo. É fácil não te amar para sempre.

Deixa-me dizer-te baixinho, ao ouvido,  nesta almofada na qual repousamos cansados, saciados e satisfeitos: não te amo para sempre. Não te amo como se tu não fosses o mundo, o sol, a lua, a noite e o dia. Não te amo como se nunca te tivesse amado, nunca te tivesse feito amor de manhã, à tarde e à noite, encavalitados no tempo, à luz do sol ou da lua, das estrelas ou sem luz nenhuma, nem mesmo a do tempo.

Não te amo como se não tivesses mamas e ventre e olhos e cabeça para compreender o que te digo quando me calo e o que calo quando te digo.

Não te amo como se não fosses tu a vida, o mundo, o tempo e o vento.

Não te amo como se não estivesse em Mértola, como se não tivesse memória, como se não soubesse que sem ti o amor o tempo o passado e o futuro não passam de um magma disforme, sem cara e sem olhar.

Não te amo como se não te amasse.

Não te amo como se este quarto estivesse vazio, como se por este rio não voassem sonhos, como se por este silêncio não perpassasse o teu sorriso céptico, ansioso e triste.

Não te amo como se tu não fosses uma das razões de eu não te amar.