27.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 26-01-2015

Estou de novo condenado a escrever num telefone portátil: ontem escorreguei a entrar num dinghy e fui para a água. Eu, o telefone que herdei do T.L. e o computador Asus comprado em Galveston.

Os danos são: a) um ego molhado pela água suja da laguna, pesado com a má-consciência de fazer, outra vez, um erro básico e chateado com o dinheiro que a distracção custa (deviam fazê-las mais baratas, ainda que com mais custos intangíveis); b) um telefone portátil no lixo. Pouco grave. Estava previsto; c) um computador portátil idem.

É o pior. Não vale sequer a pena elaborar. E não sei quando poderei comprar outro.

Este deve ter batido o recorde de brevidade de vida: dois meses.

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A semana de charter correu demasiado bem.

Estas coisas pagam-se.

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Falo com o filho do meu melhor e mais antigo amigo (não é uma redundância. É um espanto).

Está na Tanzânia em trabalho. Digo-lhe para ir a Kigoma, onde uma vez sobrevoei um engarrafamento de vinte e cinco quilómetros de vagões de caminhos-de-ferro. Fica nas margens do lago Tanganika.

Fui lá para ver se havia maneira de escoar aquilo tudo mais rapidamente. Não havia.

É preciso imaginar a linha de Cascais cheia de comboios parados para se perceber a dimensão do absurdo.

Às vezes parece-me que vivi. Deve ser uma ilusão, como todas as outras.

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Hoje soube que vou ter mais charters. Provavelmente duas semanas por mês.

Gostaria de ter mais uma: três semanas de trabalho e ums de descanso, em vez de duas de charter e duas de manutenção.

Se calhar é a isto que chamamos vida: a bóia de barlavento chama-se realidade e a de sota sonho, ou desejo, ou o que devia ser e não é.

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Uma promessa é uma promessa e com o meu primeiro salário fui comer ao Bistro Nu.

O meu colombo é melhor, mas mesmo assim foi um grande jantar.

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Os serviços de transporte público em St. Martin (e em St. Maarten - salvo explicitamente contrariado uso-os indiferentemente -) são fornecidos por táxis, buses e gipsies.

Estes operam sobretudo aos domingos, quando há menos buses e cobram os mesmos preços, apesar de terem menos custos e - regra geral - menos capacidade.

Tenho uma enorme simpatia por eles, tanto mais que os chauffeurs de bus são geralmente antipáticos.

Hoje porém vi um fazer uma coisa e quase mudei a minha percepção: numa paragem (das quais algumas têm lugar designado e a maioria depende do driver please stop gritado pelo passageiro que quer descer) o condutor parou a carrinha de modo a bloquear o trânsito que vinha no sentido oposto, para que o passageiro - um miúdo - pudesse atravessar a estrada em segurança.

Começo a gostar desta ilha, o que é tão agradável como inesperado.