9.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 08-01-2015

É preciso começar por dizer que a burocracia francesa ganhou o primeiro round por KO técnico. Técnico num sentido metafórico. Num arremedo de proteccionismo inqualificável a derrogação que me tinha sido concedida pela própria burocracia francesa não foi aceite.

Alguém um dia definiu burocracia como sendo um sistema em que o funcionário que nos atende ao guichet tem demasiado poder. Hoje não foi um funcionário do guichet; foi o chefe do escritório, o equivalente da pessoa que em Fort-de-France há quatro anos me passou o documento, com uma rapidez notável, porque eu precisava de tabalhar.

Mas enfim, posso pelo menos trabalhar nos pontões, coisa que vou fazer toda a semana que vem; e posso trabalhar noutra base da empresa de sonho que me acolhe, fora do território francês. E posso continuar a procurar empregos que não impliquem a burocracia gaulesa.

E já tenho uma residència oficial, primeiro passo para ter uma conta no banco.

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Hoje à tarde fui trabalhar para o C., instalar gualdropes e respectivos moitões. Um trabalho que me dispensa de fazer ioga: o pique de ré do C. não é feito para gajos do meu tamanho. Nenhum é, num sloop de 43', verdade seja dita.

(Quando saí de lá, o meu corpo desatou a rir-se. Quero dizer o corpo todo. Músculos, articulações, veias e artérias... tudo a rir à gargalhada. Eu também ri, mas mais discretamente.)

No fim do dia J. leva-me a casa dele para tomar um duche, dá-me roupa lavada e paga-me o dia, apesar de eu lhe estar a dever dois dias. Hoje disse-lhe que não queria o dinheiro: assim cada vez que trabalho aumento a minha dívida, não a diminuo.

Limita-se a responder que eu preciso do dinheiro - o que é imegável - e traz-me ao Lagoonies, onde aproveita para pagar uma bebida ou duas.

M., J., a empresa para a qual trabalho e não me pode pagar por questões legais mas que faz tudo para me manter, R., que hoje me ajudou a obter a residência, C. que fez a factura em seu nome para que eu possa, um dia, ser pago -... Se alguém me ouvir dizer que estou sozinho dê-me, por favor, uma martelada na cabeça.

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Hoje pela primeira vez desde que saí de Galveston medi a taxa do coiso no sangue. Estava altíssima. Parece que é por causa do tabaco. Dei um maço acabado de comprar ao R e deixei de fumar.

A cavalariça merece e o cavalo também.