14.1.15

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 14-01-2015

Não sei o que o dinheiro faz à felicidade; mas sei o que a ausência dele faz à ausência dela: potencia-a. A culpa é minha, claro: deixo sempre a corda ir até ao último nó, o elástico até ao milímetro antes de rebentar. Ontem Ph. dizia-me na Little Crew House que não tinha dormido bem. Estava à espera que o armador lhe enviasse dinheiro. Já só lhe restavam cem dólares. Eu tenho dez, disse-lhe. Mas estava a exagerar. Na verdade tenho quatorze.

E J. perguntara-me se precisava de dinheiro. Disse-lhe não. Esperava ter o cheque da empresa hoje, mas ainda não foi desta.

A transferência do Ph. chegou hoje de manhã. Espero que o meu cheque chegue depressa, ele também. Estou cansado do trabalho e farto deste problema do dinheiro. Amanhã não trabalho nem que a frota seja engolida numa vertigem de avarias, num abismo de problemas a resolver.

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Trabalhar na manutenção de embarcações tem duas desvantagens: o salário é relativamente baixo e o trabalho exigente fisicamente. E uma grande vantagem: não há melhor maneira de ficar a conhecer barcos do que mexer-lhes nas entranhas. E quando, como aos fins-de-semana, é sob pressão (entre as nove da manhã e as cinco da tarde temos de os reparar) ainda mais.

É preciso uma enorme capacidade de improvisação, flexibilidade tanto física como mental, saber gerir a pressão. Qualidades boas, prazerosas.

Apesar disso tudo, preferia estar no mar.

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Escolher um sítio para almoçar é resolver uma equação com quatro variáveis: a qualidade da comida, o seu preço, existência ou não de wi-fi e a taxa de câmbio do dólar.

A ordem não é necessariamente esta; ou pelo menos sempre esta. Acabo invariavelmente no Sous-marin, que responde favoravelmente a três dos quatro critérios.

À noite a equação é mais simples: por defeito cozinho na Crew House; se não tenho dinheiro, janto no Lagoonies. Uma das curiosidades da vida na parte inferior do leque de rendimentos é que se acaba por gastar mais, pelas razões mais inesperadas.

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À tarde o vento cai, diz a meteorologia. Espero que sim. Gosto de vento, mas esta última semana tem sido insuportável. Vinte e cinco, trinta nós todos os dias, permanentemente acaba por cansar.

Manobrar na Marina Fort la Royale nestas condições exige uma concentração e um cuidado excepcionais, cansativos.

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Tenho um novo colega de quarto. É preciso reconhecer a boa sorte: tal como o Ernesto Edwin é cuidadoso, educado, não faz barulho. Ao menos isso.

Se me apanho numa casa nem acredito. Ou num barco. Ou no mar, a mil milhas do porto mais próximo. É o melhor lugar do planeta.

Ou o único.