24.3.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 24-03-2015

O aeroporto de Miami não é, obviamente, o pior do mundo; tão pouco será o pior dos Estados Unidos, não sei. Não os conheço todos. Mas é de certeza o pior de todos os que conheço, seja onde for, categorias grandes e frequentes. O ar condicionado está sempre regulado para uma temperatura glacial; o wifi não é gratuito; as cadeiras são uma merda e além disso têm braços para que as pessoas não se possam deitar; e é feio, o que não arranja nada. E é caro (todos são, eu sei. Mas uma merda destas não devia ser).

Tive de lá passar a noite, pela segunda vez. Da primeira ainda encontrei uma plataforma de madeira que lá estava por causa de umas obras, surpreendentemente limpa. Ou pelo menos pouco suja. Desta nem isso: dormi em cima de uma estrutura de azulejo fria e duro como o raio que a parta, e já foi uma sorte encontrar aquilo: com excepção do chão era o único lugar onde me podia estender ao comprido. Dormi pouco, mal e porcamente, claro. E enregelado.

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A gata Nala está entregue. Agora falta-me esperar que S. me reembolse uma parte das despesas que tive com isto para encerrar definitivamente a história.

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St. Martin. Comi de mais, e daqui a bocadinho terei bebido de mais, se Deus quiser. Passo a vida a dizer às pessoas (como se fosse preciso) que não tenho casa. É verdade: não tenho uma casa. É mentira: tenho muitas. Uma em St. Martin, à qual acabo de regressar; uma em Lisboa; outra em S. Luís. Tenho tantas que não me lembro sequer de onde são. Palma. Falmouth Harbour. Le Marin. Panamá. Mértola ainda não, mas aposto que em breve será.

Conheço muita gente que tem uma casa em Londres, outra em Nova Iorque, mais uma em Paris e ou Madrid. Casas que custaram milhões, investimentos, arquitectos, a puta que os pariu, coitados. As minhas não custam nada, ou quase. E são muito mais bonitas porque não ficam fechadas quando eu me vou embora: as paredes não são feitas de tijolos. São feitas de olá; que bom é ver-te. Por onde andaste?; claro que tenho um lugar para ti. Não sei aonde, mas vem; sê bem-vindo; hey! Bom ver-te.

E eu respondo. Digo que sim. Como de mais, bebo de mais, vivo de mais. Sinto de mais e apesar disso consigo continuar a sentir, sorte a minha.