13.3.15

Diário de Bordos - Ft. Lauderdale, Florida, Estados Unidos, 12-03-2015

(Fotografia de Jorge Palhais)

O ponto de vista precisava de ser um bocadinho mais baixo. Porém não me é difícil ver-me chegar aqui num 40 pés a cair de podre e passar um bom par de anos a refazê-lo. Todos temos uma Mértola. A minha, por feliz coincidència, chama-se Mértola.

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De momento estou longe, e não só na geografia. Fort Lauderdale é uma das mecas americanas do yachting, que é o nome inglês de marinha de recreio - ou, como aparentemente agora se deve dizer, náutica de recreio (não sei qual a diferença, não me incomoda particularmente. Ao contrário de outras) -.

Não andei pelas marinas e não vou andar. Quero ir para Cuba e não é nestas que vou encontrar um embarque, é em Key West. Aqui venho parar dois dias, escrever um texto há muito prometido e devido e pôr ordem nas ideias.

Vou a Cuba em peregrinação. Vou a Cuba para fechar mais um caminho no dédalo que a minha vida é.

"Nomadiser, faire face, se perdre, s'accepter, persévérer, se souvenir, danser, jouer, ruser, élucider: l'homme qui parvient à réunir toutes ces qualités a toutes les chances d'avancer, même après d'innombrables erreurs, vers la réponse à la seule question qui vaille: "qu'est-ce que je veux devenir?" (Jacques Attali, Chemins de sagesse - Traité du labyrinthe).

(Este livro devia ser de leitura obrigatória desde a quarta classe, ou o que agora a substitui.)

Tenho a resposta a essa pergunta, finalmente. Há que continuar a fechar portas e abrir novos caminhos - nunca se esgotam.

(Há livros assim. Caem-nos no regaço, na vida como se houvesse um relógio comandado por um génio meticuloso até à obsessão, preciso ao milisegundo, sensato até à falta de imaginação. Chemins de Sagesse é um desses.)

Antes de Mértola há Belize. É preciso navegar para Oeste para chegar a Leste, Sul se queres ir para Norte. "Son identité [du nomade] n'est pas définie par un territoire, il ne peut la retrouver en regardant un paysage, en visitant un cimetière, en parcourant une maison. Ses racines se déploient dans des récits, des chants, des danses, des cérémonies,des techniques..."

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"Léger, courtois, disponible, solidaire: telles sont les premières qualités du nomade".

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Não deixa de ser curioso que este livro me tenha aparecido quando trabalho a Peregrinação. Mais um ardil do tal génio que tem o relógio nas mãos.

"Et retrouver celles [les qualités]  des explorateurs de dédales: la persévérance, la lenteur, la malice, la curiosité, la ruse, la souplesse, l'improvisation, la maîtrise de soi..."

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De Fort Lauderdale ainda só vi a praia, onde dei um longo passeio hoje ao fim da tarde. E pouco mais: o programa é olhar para dentro, para trás, para a frente mas não para os lados. A verdade é que conheço poucas cidades americanas e as que conheço - com a notória excepção de San Francisco - parecem-me todas iguais. (E St. Augustine, mas essa é igual às outras cidades turísticas do planeta).