23.3.15

Diário de Bordos - Nassau, Bahamas, 22-03-2015

Hoje atingi o limite. Ou pelo menos aproximei-me bastante dele. Comecei o dia a andar alguns três ou quatro quilómetros com os sacos - entre os quais, mea culpa, se  encontra ainda a mochila verde com os livros (menos o Bowles, que deixei em Black Point) - mai-la merda da gaiola da gata, a qual não parou de miar o trajecto todo. Fui deixá-la na Bahamas Humane Society, uma organização que apesar do nome só trata de animais.

E estou, depois deste tempo todo a falar de espeluncas, numa verdadeira espelunca. Posso estar enganado, mas creio que desde o Burundi não durmo num sítio tão sujo, tão infecto - e caro -.

Os Bahamianos têm uma perspectiva particular da indústria da hospitalidade. Em Black Point dormi numa casa que tinha ratos mortos (não é uma imagem, é literal: vi pelo menos dois, que pus no caixote de lixo à entrada da casa. "Espalhei veneno para ratos", explicou-me - é verdade que ligeiramente embaraçado - o jovem alcoólico e provavelmente crackómano que me alugou o sítio, pertença de um tio dele que agora vive em Nassau). Além dos ratos os lençóis não tinham sido mudados desde que o legítimo proprietário neles dormiu pela última vez (de certeza há muito tempo e as bactérias estavam por esta altura todas mortas). Impossível usar a casa de banho e a cozinha - era onde estavam os ratos, os quais estavam longe de ser a única sujidade. Tudo isto pela módica e absolutamente não negociável quantia de cinquenta dólares, praticamente cinquenta euros. E a limpeza, se eu a quisesse (queria) era por minha conta. Outros cinquenta.

De manhã mudei, claro. Fui para uma senhora que aluga quartos. Uma espécie de pensão, ou pousada, ou hotel, ou não sei como chamar àquilo. O quarto estava limpo. Cem dólares. O duche não funcionava bem e fui avisar a dona. No dia seguinte de manhã o marido, ou empregado (tão pouco sei) pôs-me um duche e dois alicates na mão.

Mudei o duche, naturalmente - consegui reduzir o preço de cem para setenta e cinco dólares à conta disso-. Nos termos do meu acordo com S. não sou eu que pago o alojamento. Mas sei que ela não tem dinheiro, está nas cordas, e custa-me não participar no esforço que ela está a fazer.

Ou custava, até hoje. Não vou descrever a espelunca onde estou. É pouco entusiasmante como tarefa. Mas lá acabei a limpar o quarto e a casa de banho e a mudar os lençóis - aquilo é um hotel de putas e as bactérias dos últimos hóspedes ainda devem estar vivinhas da costa -.

E depois um gajo que não gosta de animais e não tem dinheiro para mandar cantar um cego pergunta-se por que raio de carga de água está a passar por isto tudo para ajudar uma gaja que gosta deles e não tem dinheiro para mandar cantar um gato, cego ou não. Aquela história de sermos todos tripulantes do mesmo navio, talvez. Não sei.

(S. diz-me que amanhã posso ir dormir de novo à tipografia, na cama de campanha que tresanda a cão. Duvido. Pode ser que a Spring Break esteja mais perto do fim. Apesar de tudo pefiro uma camarata.)

Sei que amanhã é o último dia. Às sete e vinte da tarde aterro em Miami e se tudo correr bem uma hora depois entrego-lhe a gata.

Esta história não contribuiu para aumentar o meu amor por gatos; mas alargou incomensuravelmente o fosso de incompreensão que me separa das pessoas que gostam deles, ou de quaisquer outros animais domésticos.

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Estou contente por deixar este país amanhã. Só há duas maneiras de gostar disto: ser rico ou ter uma embarcação com uma despensa cheia a abarrotar.

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O hotel no qual durmo esta noite é alimentado por dois bares que lhe ficam no rés-do-chão. Espero que as putas - e os maricas, no caso daquele onde estou agora - encontrem clientes depressa. A isolação sonora não é a melhor; e sempre prefiro meia dúzia de gritos no quarto ao lado a esta merda desta música.