24.4.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 23-04-2015

Ao longe - muito ao longe - via-se um mastro e por baixo um casco e uma ilha. Não conseguia perceber-se se o casco estava na água ou no topo da terra. Enfim, não conseguia perceber-se com os olhos. Conhecendo o sítio sabia-se imediatamente que o barco estava na água, algures entre Bocas e a ilha - Solarte, um nome bonito para uma ilha -.

Solarte. Vou solarte hoje à noite, minha querida. Ou vem tu solarme, se puderes e quiseres. Vamos solarnos?  A tua ausência solame. Solarte é bom. E assim por diante.

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Dia quase perdido. Salvou-se por um cabelo, uma boa notícia que valeu tudo o resto.

É curioso como as coisas se pagam umas às outras. Deve ser a isso que eles chamam uma vida equilibrada.

A mim parece-me uma injustiça, muito mais do que um equilíbrio.

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Estou a começar a amar o Panamá e isso aterroriza-me. Já tenho sítios que cheguem. Mas a geografia é como as mulheres, não é? Todas diferentes, todas amáveis.

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Estou a ser assassinado por uma mesa que assassina tudo o que é música. Acho isto um excesso de identificação: mais uma coisa em mim que devia ser trazida para a mediana.

São tantas. E tão pouco o tempo.

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A hiper-sensibilidade devia ser punida.

Que estupidez: já o é, tanto.

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Penso em Nietzsche, que durante tanto tempo pensei ser o único daquela mágica trilogia do século XIX (ele, Marx e Freud) que não se enganou. Hoje sei que não é verdade: Deus não morreu e qualquer dia alguém vai descobrir a base neurológica do complexo de Édipo.

Que pena. Prefiro Zaratrusta a qualquer patacoada sobre os sonhos. E ser o que sou a tudo o resto. Apesar de saber que nunca serei mais do que o que sou.