10.4.15

M.

"As palavras são umas putas. Sei do que te falo, repara. Fui puta durante três anos. E com sucesso. Comecei na rua e quando parei tinha o meu apartamento e só recebia com marcação. Dez clientes por dia, vinte minutos cada um, dez para as lavagens, limpezas, etc. Tinha dois quartos. enquanto fodia num a empregada limpava o outro. Enchia a cona de gel anestesiante (só recebia homens, as gajas não gostavam do sabor daquilo)". Estava num bar da Singapura de antes do Lee; ou talvez na Havana do Baptista. Não me lembro. Éramos os dois escritores conhecidos e tínhamos aproveitado uns dias depois de um congresso literário num local qualquer das imediações - Florida? Tailândia? Não sei.

M. era uma mulher alta e magra, com cabelos pelos ombros. Vendia muito mais do que eu, mas não ligava muito à fama. Quando olhava para as pessoas parecia que não as estava a ver, que o olhar lhes passava pelo corpo e nada o retinha. Falsa  impressão: uma das razões do seu sucesso como escritora era a densidade que dava às personagens. Vejo agora que lhe vinha dos tempos de puta, provavelmente. Não constavam em nenhuma biografia. Aparentemente ninguém sabia, no meio.

Tão pouco sei. Passaram muitos anos. M. morreu há uma semana, daí eu ter pensado nela e naquela noite que passámos juntos, em Singapura, ou Havana. Podia ter sido em qualquer cidade: uma cama e dois corpos são um país em si mesmos, não dependem do que os rodeia.

Eu era muito mais novo do que ela, uns vinte ou trinta anos. Vimo-nos várias vezes depois disso, irregularmente, ao acaso dos congressos ou dos encontros literários.

Uma vez comecei a falar-lhe das rugas e de como gostava delas e da vida que contavam e ela respondeu-me "cala-te e fode".

Uma manhã em Paraty - tínhamos sido convidados, finalmente, eu pela primeira vez - fomos dar um passeio pela praia de manhã cedo. Estava deserta - de manhã cedo em Paraty só há homens e mulheres a limpar as ruas -. Não sei se conhecem a vila: um antigo posto colonial de escoamento de ouro e pedras preciosas que depois se especializou na destilação de açúcar e teve a sorte de estar longe de tudo quando tudo isto acabou. Ficou parada, a decair tranquilamente, até ter sido descoberta para o turismo.

Aquilo é surpreendentemente bonito; mas do que gosto mais é da luz matinal, que enche tudo - a areia, o mar, as fachadas, o ar - de tons alaranjados, densos. Anda-se por ali de manhã e tem-se a impressão de estar a penetrar num segredo.

M. ficava particularmente feliz naqueles momentos. À medida que o dia avançava e a luz diluía os pormenores numa cor normal ia-se calando e retomava o seu olhar neutro, vazio ou pretensamente vazio.

Foi numa manhã dessas que me falou dos seus anos de prostituição. E me contou que tinha dois preços. "Um com, o outro sem. Com era com fingimento e custava o dobro. Acreditas que a maioria dos gajos queria que eu fingisse e me pagava para isso?"

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"As palavras são umas putas. Há quem pague para que elas finjam. Não caias nessa asneira. Fode-as como elas são. Se não gostares ou és tu que estás a foder mal ou escolheste as erradas".

Para a M., que nunca dormiu comigo em Singapura.